VIVA A REPÚBLICA!
A minha avó Guilhermina tinha acabado de dizer aos filhos: “só ganhamos para os juros e o vosso pai não se importa com nada, porque no meio de toda aquela loucura, só diz que tem os bancos na mão”. Lá adormeceram agarradinhos, mais uma vez. De manhã cedo naquele 31 de dezembro de 1941, o meu avô António levantou-se exuberante. Bem-disposto e brincalhão. De tudo fazia uma piada. Bebeu o seu chá e torradas com muita manteiga. Tomou um duche naqueles baldes enormes de zinco pendurados no teto da casa de banho a cantar a ‘Lisboa Antiga’. Para ele era um dia bastante especial. Esperava um ano inteiro por essa noite. Nada o fazia entristecer, nem a sua falência iminente. Tinha tudo hipotecado à Caixa Geral de Depósitos e estava feliz, porque nunca teve a mais pálida noção das coisas reais desta vida. Sempre viveu noutros horizontes e noutras dimensões. Filho de um homem muito rico, com vasto património. Foi para Lisboa aprender o ofício de comerciante, coisa fina naqu...








