A venda de uma enciclopédia e a compra de um par de sapatos.

 


Quando andava no primeiro ano da faculdade fui vender enciclopédias durante um mês. A comissão era boa.

Vendi uma a um amigo de Leiria rico. Era um 'produto bom'. Em inglês, com montes de ‘ofertas de outras obras parvas’.

Ganhei uma comissão de 9 contos e quinhentos e fui às Amoreiras comprar um par de sapatos topo de gama.

Mas aquilo tinha reuniões semanais, com técnicas de venda bastante agressivas. Os que não conseguiam vender nessa semana eram humilhados.

Entreguei a pasta e mandei-os à merda.

Também já tinha os sapatos. O que é que eu poderia querer mais?

Um dia, num jantar de ex-colegas da Domingos Sequeira, o filho do industrial a quem tinha conseguido vender a enciclopédia, perguntou-me com voz alta para todos os meus amigos ouvirem: “então, ainda andas a vender enciclopédias?”

Respondi-lhe imediatamente: “Não. Aquilo era tão mau que o único bronco que deu 70 contos foste mesmo tu!”

Lembrei-me desta estória porque, nessa altura usava uma máxima: ‘nunca tocar à mesma campainha duas vezes’. Também toquei a poucas, mas era esse o meu princípio.

Na passada sexta, telefonei a um velho Amigo, perdido, ultimamente. Resolveu, bem ou mal, não atender.

Transformou-se logo em ‘campainha’.

A vida é uma estranha aventura.

Hoje faz anos e foi convidado para assistir à posse do Presidente da República.

É um tipo importante.

Daqui a dois anos tem o partido estraçalhado e dividido em dois. Envelhecerá 20 anos nos próximos 3.

Perdeu o que de melhor teve.

Que para mim é a sinceridade absoluta. Comigo, perdeu-a. Talvez fosse a única pessoa com que sempre contou. Mas isso, agora, não interessa mesmo nada.

Terá dois anos de mandato a tentar mitigar os estragos da tempestade e os remanescentes a tentar mostrar obra nova.

Será escorraçado por todos os que o aplaudiram. E ainda, cinicamente o aplaudem.

Mas isso, são outros quinhentos.

Pergunto-me: na vida é preferível estar do lado de dentro de casa a olhar para quem nos bate à porta pelo buraco da fechadura e fingir que não nos vê?

Respeito e entendo todas essas opções.

Sinceramente.

Só não sei é se recompensam no futuro.

Mas, quando a vida nos trata mal, e não somos capazes de olhar para os olhos dos outros, não somos mesmo nada.

Ou melhor, és como aquele imbecil que me comprou a única enciclopédia que vendi na vida para comprar um par de sapatos de marca.

Foi nisso que te tornaste.

Quanto a mim, ainda posso dizer que fui a tempo de deixar de prolongar ilusões. 

Já não é mau. Nos tempos que correm.


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