Bacias cheias que transbordam.



Ainda sou do tempo de se ir buscar água à Fonte da Formosa. Água para beber. Até havia a família dos ‘impelicos’ que vendia água dessa fonte em cântaros de barro. 

Passados 5 ou seis dias da tempestade que não destelhou a minha casa, e após mais uma noite em claro, vinha eu da pastelaria da Vieira e encontro-me com uma ex-professora do ensino primário aposentada que me perguntou como estava, dizendo-me que tinha de ir ao Continente comprar água para pôr na sanita. Respondi-lhe amavelmente que poderia estar melhor se as portas do Café Liz estivessem fechadas aos seus clientes, nem que fosse temporariamente.

Respondeu-me que apreciou bastante a posição do dono do café, porque “psicologicamente tinha sido muito positivo para a população”. Disse-lhe que nem ia a jogo com esse argumento, porque não tinha qualquer paciência e disponibilidade mental para contrapor aquele tão inteligente argumento. “mas não ficas chateado comigo, pois não?”. Eu disse que já não tinha idade para me aborrecer com parvoíces. Só isso. E lá foi comprar garrafões de água para despejar pela sanita abaixo.

A semana passada entrei no meu apartamento de primeiro andar, do prédio construído em betão armado, que recuperei durante seis meses para o poder habitar. Entrámos eu e o António e o chão (novo) estava todo levantado porque a chuva tinha ultrapassado duas placas. Tinha lá colocado diversas bacias para conter a água abundante que ia caindo do teto. Estavam todas cheias e a transbordar. O António foi despejar tudo, não sem antes lhe ter dito: “deixa estar, isto tem de ser tudo recuperado e perdido por cem, perdido por mil”.

É o que tem ultimamente acontecido com certas pessoas na minha vida, cuja tolerância é igual à capacidade das bacias e dos baldes. Pelo menos para mim. Por vezes ultrapassam a minha capacidade.

Perdido por 100, perdido por 1000.

Gosto pouco de posturas passivo agressivas. Não me estou a referir obviamente a telefonemas não atendidos e não devolvidos posteriormente. Isso, já nem conta para nada.

E não, não me estou a referir ao Presidente do Município.

Muita gente importante me tem levado esta estranha tempestade.

Mas, há sempre quem vá permanecendo. 

Também é esta a beleza da Vida.

E muitas, muitas, muitas têm sido as 'minhas' pessoas. Até recebi hoje um telefonema de uma delas a oferecer-me dinheiro para as minhas obras. Felizmente não tenho necessidade, mas registei. Para sempre!

Por comparação com gritantes ausências de outros obrigatórios telefonemas, que também registo, que nem quiseram saber como estava. Não fiquei nem com mágoas, nem surpresas de qualquer espécie. O normal em tão nobre, digna e honrada gente. Com pergaminhos reconhecidos de fraternidade e solidariedade reconhecidas por tantos e tantos 'aventais' que a mesma pessoa ostenta no seu colo. 

Absoluto desprezo é o que sinto. 

Coisa pouca, portanto.

Desprezo!

Há poucas semanas deixei por aqui escrito, que tinha acabado de fazer o maior negócio da minha vida. Muito maior que o negócio da Nazaré e levei o meu filho mais novo para assistir a essa maravilhosa negociação, só para que aprendesse o valor da palavra honrada. E assim foi. Perdi à cabeça 16.000 € + IVA e fiz questão nisso. Podia não o ter feito, com a complacência da empresa com quem fechei negócio. 

Por isso levei o João assistir à minha 'perda' de 16.000 €. E orgulhoso fiquei por o meu puto ter entendido que a palavra de um homem limita-se a ser a palavra de um homem. E por aqui me fico.

Na volta para casa expliquei-lhe tudo o que estava em jogo, que não era muito. Era a minha honradez. 'Apenas isso'. 

PS: Com mais de 1000 leituras diárias, este blog que construí sozinho, ou é o Correio da Manhã ou é apenas lido por gente completamente masoquista que apesar de não gostar lá vai lendo.

Deve ser mesmo uma espécie de Correio da Manhã, porque só fala em desgraças, fugas de informação e assassinatos de carácter como diz o velho Constâncio, do alto da sua enorme 'sabedoria', só própria da idade.


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