Era uma vez uma nota de 50 Escudos.



Hoje é dia de todos os Santos.

Foi neste dia que o meu avô António morreu num acidente de automóvel em Águeda a caminho de um comício em Aveiro na campanha de Norton de Matos, com 56 anos.

Saiu feliz de casa a cantar ‘Lisboa Antiga’.

Nesse comício, ao saberem da morte do meu avô foi feito um minuto de silêncio.

Curioso, como um tipo da Vieira tinha projeção nacional.

O corpo do meu avô ficou em câmara ardente em Águeda, com duas ou três mulheres a rezar Avés Marias, Padres Nossos e velas acesas.

Sem mais ninguém.

No outro dia o meu pai trouxe o meu avô para casa e ofereceu-lhes 150 mil reis, apenas porque não tinham deixado o meu avô ‘sozinho’.

Há gestos simples que revelam muito acerca de quem os pratica.

Nem um nem outro acreditavam em Nossas Senhoras nem em Deus.

Acho esse gesto sublime.

De reconhecimento, tolerância, afeto e respeito.

Depois disso, a Vieira, assistiu a um funeral monumental que teve direito a fotos e tudo.

“A Vieira está de luto”, ouvia-se nos dias seguintes.

Quem fez o elogio fúnebre foi o Dr. Vasco da Gama Fernandes, entre outros oposicionistas. O primeiro Presidente da Assembleia da República após o 25 de Abril.

Coisas dessa terra.

Quando morreu, o meu avô deixou todo o seu património hipotecado à CGD por 500 contos.

Em 1954.

Mais 80 contos ao Dr. Franklim Vieira Dias e 20 contos ao Senhor Dâmaso Luiz dos Santos.

A minha família completamente falida e com vários negócios em curso.

Ajudou muita gente durante toda a sua vida, o meu avô António.

Um dia em 1978, eu com 10 anos e todos a almoçar ouvimos a campainha da nossa casa tocar.

Nesse tempo, não havia intercomunicadores. Tínhamos de ir à janela ver quem tocava no r/c.

Calhava-me a mim, porque era puto.

Estava no passeio, com cara de mau, um senhor que só me disse:

“chama a tua tia!”. 

Ela era presidente da Junta pelo PS.

A minha tia interrompeu o almoço, desceu as escadas e só ouvimos uma breve conversa em alta voz.

Nada mais.

Tinha sido o Senhor Celestino Feijão, comunista vieirense e antigo preso político a quem o meu avô tinha ajudado a esposa com 50 escudos, 25 anos atrás.

Tinha vindo devolver uma nota de 50. Valor dessa manifestação de solidariedade. 

25 anos depois. 

Sem propósito e nem decência.

A minha tia, Deus a tenha, disse-lhe das boas e atirou-lhe a nota borda fora e fechou-lhe a porta na cara.

Quando alguns preferem a sinistra hipocrisia social e delicadeza de costumes, lembro-me sempre dessa nota a voar na cara de um ingrato a quem nunca ninguém pediu rigorosamente nada.

Nunca tive medo de falar acerca nem de vivos nem de mortos.

E odeio essa forma de delicadezas cínicas que parecem agradar a toda a gente desta vida.

Deus, Nosso Senhor me conserve sempre assim!

Há quem me chame malcriado, ingrato e 'imediatista'.

Abençoado imediatismo, ingratidão e falta de delicadeza. 

Abençoados sejam todos esses que assim me consideram.

Sinceramente.

Deus os guarde sempre na hipocrisia e canalhice das fáceis definições. 

Acerca da vida, dos outros e da puta que os pariu.



Comentários

Mensagens populares