Que vos faça bom proveito!
Um par de botas de inverno, uma camisa, um pullover, um
casaco e o meu carro.
Assim fiquei em fevereiro.
Quase tudo destruído na Vieira.
Primeiro com a Kristin, depois com 3 semanas de chuva
abundante.
Nos primeiros dias fiquei em Leiria em casa da Helena sem
dormir. Dia após dia. Noite após noite a ruminar tudo o que tinha pela frente.
Os clientes do café Liz todos contentes, com chuva em cima e
todas as luzes acesas, num perigo eminente.
Tudo uma cambada ou de burros ou de irresponsáveis, porque se
encontravam debaixo de uma casa sem placa de betão com 130 anos e com a chuva a
cair-lhes em cima.
Coisas passadas.
Agora, nada de importante. Nessa altura, não!
Um gerador que garantia cafés e o ‘regular’ funcionamento de
um estabelecimento que com o andar dos dias poderia ter contribuído para que
uma desgraça acontecesse em cima de outra, perante a indiferença do
proprietário do negócio e seus familiares próximos.
Não me canso de falar deste assunto porque me fez perder 15
Kg e noites de sono e de preocupações enormes.
Agora, volvidos 8 meses, a sensação é outra, porque a
realidade mudou. Só por isso.
Uma vez, há alguns anos, na pior fase da minha vida, ouvi
esta frase: “não são as circunstâncias que envolvem as pessoas que interessam, mas
sim as pessoas que conduzem as circunstâncias contam”.
Na altura não entendi. Os anos que passaram depois de ter
ouvido esta ‘maravilhosa’ consideração!
Crua.
Dura e, naquela altura, inexplicável.
“Os anos que passei para aqui chegar!”
Vim viver para a terra da minha mãe. Há 8 meses que cá estou.
Não conheço por cá ninguém.
Talvez o barbeiro, o senhor que me vendeu a cana de pesca e
me vende o isco, o André do restaurante onde por vezes janto.
Perco-me por aqui.
A olhar para o mar e sem falar com ninguém.
Tudo isto me dá paz.
Uma paz enorme e indescritível.
O barulho destas ondas pequenas, sem o cheiro a iodo, com
pouco vento.
Da Vieira, … terra da minha vida, só a morte quero, porque
apenas lá repousarei.
Reconstruirei tudo. E construirei mais algumas coisas, apenas
pelo António e pelo João.
A Nazaré recebeu-me com todo o carinho do mundo.
Razão teve sempre a minha mãe, coitada: “tu sabes lá o que é
adormecer a ouvir o mar da Nazaré, que (eu) sempre desprezei.”
Nunca mais ninguém me tirará daqui.
Desta casa, a vista do mundo não tem fim. Essa (a da Vieira),
esbarra em pessoas, casas, um largo amputado, uma escultura escarrada pelo mau
gosto de um imbecil com colunas ridículas, um lago porco e uma praia sublime completamente
desaproveitada e um concelho adiado sem uma estratégia.
Deus vos salve a todos.
Que a Vieira não é para mim.
Será para os meus filhos ou para os filhos deles se por aí
ficarem.
Deus queira que não.
Só não pus tudo à venda porque os meus filhos me pediram que o não fizesse.
Que fique registado.
Não acredito em vocês, simplesmente porque não têm capacidade absolutamente nenhuma em acreditar no vosso futuro, prendidos que estão em quatro e quatro anos de coisas nenhumas, perdidos em manias de grandezas ridículas sem qualquer propósito de médio e longo prazo. Preocupados em ser os melhores de qualquer coisa.
Agora é o maior Pavilhão Multiusos da zona centro!
Façam um pavilhão gimnodesportivo suficiente e construam casas de habitação a rendas reduzidas, no melhor ativo que a Câmara dispõe há anos e o outro que irão comprar e deixem-se de manias de grandeza. O Constâncio até o queria permutar pelas piscinas oceânicas. Esse grande visionário.
Quantas centenas de habitações seriam construídas com fundos do IRHU?
Isso ultrapassa um mandato?
Pois!
Ultrapassa-os é a todos.
Os que lá estão agora!
Os que ficam depois disso, ... interessa pouco!
Isto vale para ti Paulo Jorge.
Há fundos, gastem-se.
A inteligência, fica-se.
Termino como comecei, só não pus à venda tudo o que tenho e muito, na Vieira, por respeito à vontade do António e do João.
Essa terra não me merece qualquer respeito.
Sem líderes, sem estratégia, sem carta de intenções.
É uma terra de Norados e de Jús.
Quanto à Marinha, amaldiçoada a hora em que fundamos esse triste Concelho!
Linda a vista da minha casa da Nazaré que foi construída por cima do casebre dos meus avós.
Vê-se o futuro.
Como ouvi em Espanha: "por vezes temos de andar três passos a trás para ver á frente".
Foi o que me aconteceu.
Quanto a vocês, contentem-se com o que têm tido.
E é muito pouco ou nada!
Irão apostar no maior Pavilhão Multiusos da zona Centro.
Coisas à Constâncio.



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