O Mundo tá todo fodido!


 

Um dos meus maiores prazeres é estar à mesa com Amigos.

Nunca fui de comezainas, porque não sou de comer muito. Gosto apenas de partilhar momentos, que tenho como sagrados, porque o são.

Contam-se pelos dedos das duas mãos, as memórias com elevação em que participei.

Todos as outras, nesta senda, não são para aqui chamadas. Simples enganos e erros crassos.

O saber estar a partilhar cumplicidades e diferenças é sempre uma forma de tocar no sublime, por isso um dia refiz um espaço em minha casa para receber Amigos, com esse propósito. Uma mesa enorme e uma lareira também ela de generosas dimensões. Uma cozinha e uma casa de banho.

Cá fora, no jardim, um grelhador, para o que desse e viesse. Refiz todo o quintal.

Inaugurei a “Tertúlia da Laranjinha” num jantar em Dezembro de 2009 com nove Amigos, escolhidos à lupa.

Aproveitei um bocado de ardósia da cozinha que tinha sobrado e mandei-a recortar e polir tendo-a colocado na parede com todas as alcunhas do Grupo fundador. 

"O Grupo  dos Nove":

Cáguta, Carioca, Corvo, Doutor, Fanó, Pharmácias, R.A., Taranta e Veneno.

Bacalhau assado com batatas à murro, tintos do Douro e do Alentejo, duas enormes Brisas do Liz feitas pela minha tia HB, café, aguardentes velhas e charutos cubanos.

Começou pelas sete da noite com a leitura dos Estatutos pelo Fernando Amado e descerramento dessa placa pelo António com 5 anos ao colo da mãe e deve ter acabado lá pelas cinco.

Grande noite, como outras se lhe seguiram.

Se hoje recordo esse jantar memorável que decorreu no espaço onde antes existiu o ‘Jogo da Laranjinha’ que o velho Café Liz proporcionava aos seus clientes no tempo do meu avô (jogo totalmente ultrapassado, que mais não era que um ‘desporto’ com bolas em madeira maciça num 'tabuleiro' cerca de 30 cm abaixo do piso térreo (9 por 2) e tabelas em madeira também, onde as bolas tinham o tamanho das do bowling), é porque após uma semana em Madrid, tive saudades de comer coisas boas.

Come-se bem por lá. Isso é verdade, mas, ao fim de uma semana ... faltam-nos as 'nossas coisas'.

A Helena já só me dizia que sentia falta das minhas sopas e dos jantares feitos por mim.

Adoro essas ‘saudades’ da minha mulher.

Sinceramente.

Grande jantar português fiz eu hoje na Nazaré.

Tudo isto porque estive hoje com o Alfredo João e relembramos um jantar no Sítio da Nazaré com o grande Zé do Cais. Teríamos sido uns 5 à mesa numa tasca, de um embarcadiço amigo do João que nos fez um petisco brutal há quase 30 anos.

O melhor de estar à mesa fraternalmente nunca é a ementa. É o que a move. A conversa, a inteligência, a sensibilidade, o confronto. Numa palavra, a Vida em toda a sua máxima expressão.

O Zé do Cais era um homem fenomenal pela sua argúcia, pelo seu pensamento fino, pela sua monumental inteligência e pelo seu enorme sentido de humor.

Há mais de vinte anos e a despropósito, só nos disse:

“o mundo tá todo fodido, pá”.

Por isso nunca confundo inteligência com graus de instrução.

Que saudades!

Há 20 e muitos anos estávamos todos em festa, mas o filho do Manel do Cais com 'apenas' a sua instrução primária e enorme sabedoria previu tudo o que agora vivemos.

Que saudades e enorme sabedoria!

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