Café Liz - Viva a República!




Só enquanto o projeto não entrar na Câmara.

Quem quiser partir vitrines, como fez com as fechaduras, pois que o faça.

Isto vai lá estar, entretanto.

Porque vai!

Este texto somos nós há mais de cem anos.

Pois que, à semelhança de uns dias atrás, quando esbardalharam uma fechadura, quem todos sabemos se tratou e parta estas vitrines.

Nós não somos assim!

Nem pela calada da noite, nem pela luz do dia. Não somos, porque nunca fomos. Nem sequer capazes de ficar com o que nunca foi nosso. Antes pelo contrário. Que nunca ninguém se meta com gente decente e ferida de morte, como tem sido o nosso caso.

Antes morrer.

Normalmente, gente como nós sabe sobreviver. 

Canalhas. Cobardes. Gente mesquinha!

Partam lá isso. 

Na calada da noite ou do dia.

Desta vez, meteste-te com o nosso berço e com a nossa mortalha Nuno. Pedi-te para fechares as portas durante uma tempestade. 

Só isso te pedi.

Ninguém se mete com o nosso Templo, ainda mais naquelas circunstâncias.

Ninguém! 

Nem o Maestro do coro, nem o Judeu, e muito menos tu!

Três tristes figuras.

Tudo pus atrás das costas no dia 28 de outubro de 2003, quando o caixão do meu pai passou frente a essas portas abertas ao público em sinal de desrespeito absoluto, de quem não teve princípios nem educação. Esse a quem tinham roubado dois anos antes, com uma vigarice enorme e fácil de comprovar.

Todos vocês.

Nesta altura, não há morte que vos salve. 

Nem a minha!

Muito menos a minha!

Nem a minha!

Canalhas.

Ingratos.

Mentirosos.

Escroques. 

Isto não é ódio. 

É muito mais que isso.

É asco puro!

...

"Esta casa foi construída em 1905 por Jacinto Teodósio Pereira, que teria feito em novembro de 2026, 159 anos.

Arrendou a parte habitacional e comercial.

No centro da aldeia.

O seu filho António Teodósio Pedrosa era um garoto e no fim da adolescência foi para Lisboa aprender o ofício de comerciante. Por lá foi ficando. Ganhou diversos prémios de montras nos melhores armazéns do Chiado onde trabalhou.

Regressou à terra, tendo-se estabelecido com uma loja de fazendas e retrosaria. Passou-lhe um dia pela cabeça fundar um café, em 1919, no espaço contíguo. Deu-lhe o nome de 'Café Liz - Cervejaria'. E fê-lo em grande. Com um primeiro andar para jogos de salão, um bilhar lindo de madeira maciça e mesas de jogo. Construiu uma fabulosa escada de caracol e um elevador manual para levar bebidas do r/c para o espaço de recreio dos seus clientes. Tinha também um ‘frigorífico’ para refrescar bebidas, numa cave com 1 metro cúbico com barras de gelo.

O balcão e a decoração eram de ‘Arte Nova’, os seus empregados vestiam casaco branco e calças pretas. Tudo em grande! E, mesmo depois da sua morte prematura, aos 56 anos, o café continuou. Funcionou nesse espaço até 1962, já com a gerência do seu filho Armando Teodósio Pedrosa, que decide modernizar esta velha casa, rasgando as montras da antiga loja de fazendas que tinha acabado de fechar.

Era, sem dúvida o café mais moderno da Vieira e de toda a região próxima.

Fechou em fevereiro passado, pela força das circunstâncias.

Reabrirá um dia.

Moderno, lindo e irrepreensível.

Como dizemos uns aos outros, há gerações, em todas as passagens de ano:

“Viva a República!”

Sempre foi essa a sagrada senha dos Teodósios nesse velho Café, que um dia ressuscitará com a vontade inabalável de voltar a agarrar o futuro.

Há quase seis décadas adiado.

"Café Liz, Cervejaria - desde 1919".

Esta Casa é o berço de todos os Teodósios, e esta a sua divisa de mais de cem anos em todas as ‘Passagens de Ano’.

“Viva a República!”

Quem poderá, em boa verdade, olhar para o futuro, caso não tenha o mínimo respeito pela memória daqueles que tiveram o mesmo sonho e a criaram?

“Viva a República!”

Um grito que se voltará a ouvir dentro destas mesmas antigas paredes em todas as meias-noites de todos os 31 de Dezembro, com 12 passas de uva na mão de cada cliente, uma taça de champanhe e um enorme respeito pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade!

“Viva a República!”

Sempre.

Café Liz, Cervejaria - desde 1919."



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