Aos Salieris desta vida.
Os tempos mais exaltantes e felizes que vivi foram os da
minha infância, os da Biblioteca de Instrução Popular e os da TUMG.
Com uma intensidade indescritível, onde adormecer era um intervalo
breve, porque o amanhã nunca mais chegava.
Para mim, essa é a mais perfeita definição de entusiasmo pela
vida: “o amanhã nunca mais chegar”.
Na BIP convivi de perto com o Júlio Gouveia e com os melhores
que a Vieira dispunha à época. Escolhi-os a todos. Um por um. Inventei e fiz
constar nos Estatutos a possibilidade de existir um Conselho Consultivo.
Nunca gostei de privar com imbecis, graxistas e ‘dizedores
que sim’, como outros tão bem sucedidos nessas lides de 'trabalhos de grupo'.
Nunca fui assim, porque sempre amei a contradição, o
confronto e a inteligência.
Ultimamente tenho-me lembrado muito do Júlito.
Tivemos, como é sabido, ‘as nossas coisas’. Diferendos agudos
e sofridos.
Tudo resolvemos a tempo. E horas.
Com elevação, respeito e sinceridade.
O Júlio tinha um enorme sentido de humor. Inteligente e algo
britânico.
Muitas vezes me dizia a propósito do que agora vem a
propósito na minha vida e dos meus filhos:
“Nunca viste o ‘Amadeus pá?’
Tu és o Mozart, o outro é o Salieri.”
As saudades que tenho dessas e doutras conversas e do seu
sentido de humor.
Engraçado, nesse filme monumental de Milos Forman, o Salieri também abanava
abundantemente os braços a dirigir uma orquestra, enquanto o desbragado do Mozart
fazia sonatas em cima de um bilhar pequeno a beber copos de vinho.
Eternas, todas elas e de uma beleza sublime. Morreu novo demais. Viveu com uma intensidade indescritível.
Costuma acontecer aos bêbados depositados em valas comuns
enquanto a mediocridade progride e se alavanca na sociedade que os finge
venerar, como o outro.
Esse morreu de velho e completamente esquecido.
Foi o realizador desse filme que o ressuscitou, como acontece sempre aos medíocres que só são importantes porque invejam e tentam estraçalhar as pessoas erradas.
Mal comparando, tiveste piada Júlio!
Muito nos rimos nós à custa do Salieri da Vieira, que ainda esbraceja nas Missas.
Já o meu pequeno bilhar, apesar de completamente inundado está fino.
Dá para jogar, escrever e beber copos de vinho.
É de mogno.
Não inchou com 3 semanas de chuva.
O inventor do 'foguetório republicano' sabia o que comprava.
António Teodósio Pedrosa de seu nome, fundador do café. Esse café que morreu há 60 anos, porque o outro,
com o mesmo nome, sempre foi uma rasca imitação.



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