2.000 metros quadrados.


 

Ontem eu e o António em Coimbra fomos almoçar a uma tasca. Dois bitoques. Coisa rasca, como nós somos. Enquanto aguardávamos os pratos dizia-me o puto, “adoro este tipo de espaços. Esta era a vida que adorava ter. Almoçar nestes sítios todos os dias, trabalhar pouco e ir à minha vidinha”.

Fomos a pé à FLUC ter com o Cabral.

Gloriosa tarde a assistir, na primeira fila, de quase ninguém, com um enorme amigo nosso a triunfar e cruzar a meta de uma maratona impossível a quase todos os que conheço. Não pelo grau académico, mas por tudo o que a envolveu.

Nesta coisa de sucessos é sempre fácil e óbvio concordar.

Não me detenho com essas considerações, algo miseráveis e cínicas de tantos likes e comentários de quem sempre esteve ausente.

Já em Leiria, perguntava-me o Tóino: “amanhã vais fazer o quê Ruizinho?”

“vou cortar o cabelo, comprar coisas ao mercado e ler até me fartar”.

Aquele gajo só me responde com a maior desfaçatez, que até gostava de ser barbeiro, porque cortava cabelos, calhandrava, levava 14 euros por corte e dizia bem do Benfica.

É pouco ambicioso este meu filho.

E isso irrita-me imenso. Não é que eu o não tenha sido também, porque o fui, mas este gajo tem talento e desperdiça-o miseravelmente.

Talvez consiga ser muito mais feliz que eu.

Hoje disse-me que eu vivo agarrado ao passado. Mas quem pensa aquele puto que é para me dizer estas coisas?

A Helena diz-me a mesma coisa.

Começo a pensar, aliás tenho mesmo a certeza, que estão todos errados, menos eu.

E isso não é bom.

Estivemos a conversar sobre tanta coisa durante toda a madrugada fora, até que lhe mando o site de uma casa em Porto de Mós, com 2.000 m2 de terreno. Em pedra.

A primeira pergunta que me fez foi:

“tu adoras Porto Mós. Quem te mandou isso?”

“Foi a Helena”.

“É um projeto que é uma maravilha. Se forem para lá a Helena vai-te obrigar a fazer caminhadas pela serra. É um luxo. No inverno deve ser um frio brutal, lá temos de ir à lenha no outono. Mas acho que fazem muito bem.”

O que quero dizer é que se a ideia tivesse partido de mim, seria exterminada à partida, porque para aquele aprendiz de arquiteto, como o site da propriedade que lhe enviei partiu da H, por isso, passou a ser uma coisa brutal.

O conceito de família está mesmo muito mudado.

Olha lá puto, quem teve a ideia fui eu, quem encontrou o espaço foi a Helena.

Tu, que és do Glorioso andas a apitar o jogo errado.

As regras estão distorcidas.

Tal como neste campeonato.

Mas afinal que merda é esta?

Isto de filhos e de campeonatos da primeira liga anda tudo muito complicado para o lado dos bons.

Ficas a saber, que só podes acarretar lenha. Não te podes aquecer.

😂

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