Zé Eduardo.



O Zé Eduardo é o avô dos meus filhos.

Actor. Homem completamente livre e de liberdade absoluta.

Muito à frente do seu tempo, cosmopolita, culto e profundamente ‘egoísta’.

Fugiu às convenções, às suas obrigações e aos seus propósitos. Os propósitos do seu tempo.

Divorciou-se e decidiu partir.

Deixou mulher e filhos e foi para Lisboa para pisar as tábuas de teatros e entrar em filmes.

Delicadíssimo com toda a gente. Sempre detestou o conflito. Nunca levantou a voz a ninguém.

Soube sugar a vida como poucos.

Está velho.

Muito velho.

Quando comecei a viver com a Sandra não me conformava com a indiferença que os ‘unia’, por isso tudo fiz para os reunir num jantar em nossa casa na Vieira.

Grande jantar e grande noite.

Um dia, numa entrevista num programa qualquer na televisão disse, que “uma das noites mais felizes que tive foi na praia da Vieira porque o meu genro, um louco (como ele dizia: Óh Sandra este gajo é louco, mas é um louco bom), fiz as pazes com a minha filha”.

Após isso, passei a telefonar-lhe todos os dias em que a Sandra fazia anos e só lhe dizia: “não te esqueças que hoje a tua filha faz anos. Telefona-lhe!”

Quando nos encontrávamos ao fim dia, a Sandra ria-se e só dizia: “então telefonaste ao meu pai para me dar os parabéns. Ele nunca se lembra deste dia.” Sempre neguei.

Ontem o António enviou-me um link para ver o seu último espetáculo no Campo Pequeno com milhares de pessoas.

Hoje o João apareceu-me por cá para almoçarmos e pôs tudo na televisão.

Comovi-me bastante e, como sempre tento fazer nessas alturas, pensei que disfarçava as lágrimas.

O puto percebeu e no fim, só me disse: Até te comoveste?

A nada respondi.

Há vidas grandes.

Tenho bastante orgulho em saber que é avô dos meus filhos.

Nada mais a acrescentar.

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