Tudo o que ficou.
Só tenho dois desejos.
Com quase 60 anos e todos os anteriores sonhos perdidos,
restaram-me apenas três.
Escrever um grande e inesquecível Romance, porque, como sempre
disse, é a forma maior de escrever e ver um dia a Casa da minha vida e
o seu Café refeito e nas certas mãos. Com os Teodósios novamente por lá, após 60 anos
de infeliz interregno.
Sublimes estes dois propósitos.
Pretensiosos talvez.
A Helena, o António e o João acreditam nessa possibilidade.
Basta-me bem.
Quando as nossas únicas pessoas acreditam em nós, isso
confere-nos
uma força inabalável.
Ninguém proclama os seus sonhos, é verdade.
Mas eu, como já perdi quase todos, sendo que o maior deles era ter sido Vereador da Cultura da Câmara da Marinha, nada e após isso interessa. Sempre fui burro e pequenino, mesmo a sonhar.
Fiz e refiz os sonhos dos outros tantas vezes que sinceramente nunca priorizei os meus. Mas também nunca tive qualquer paciência para 'comer' as circunstâncias para os poder ter atingido. As hipocrisias do costume de quem quer ser alguém nessas lides, como o 'voz de menina' e outros ilustres 'trapeiros' desconhecidos e conhecidos. Os do costume, que vendem a alma por um lugar, caganças e interesses.
De imbecis, sem talento, passado e provas dadas.
O costume.
Não tenho, nesta fase da minha vida, com que me preocupar com
as opiniões dos outros. Ainda mais antecipada, infeliz, invejosa e de ironia
breve e sarcástica. Nem sequer com o que sonhei, nem com o que desejo ou desejei fazer.
Perdi todos os sonhos da minha vida, menos estes. É verdade.
Um está na minha cabeça todo escrito, outro está no traço do António e em toda a história da nossa família. De mais de duzentos anos na Vieira.
Ficará apenas uma breve ‘brisa’ em nós Helena Isabel.
Uma casita refeita de pedra, com um riacho qualquer, umas árvores, mil ou dois mil metros quadrados, uma lareira enorme e um forno a lenha para todas as noites de inverno. E uma vista sublime para uma serra qualquer.
Adormecer de mãos dadas, como sempre temos feito.
Sem qualquer ruído e pessoas perversas à nossa volta.
Tu, és o maior sonho que me resta.
Até ao fim dos meus dias.
Meu amor.
Não te importes se ridicularizarem este texto.
Não te importes.
Normalmente esses comentários vêm sempre dos infelizes e frustrados da vida.
Nem tu, nem eu fazemos parte de grupos desses.
E todos estes 'pobres' sonhos, são realizáveis, sendo que o mais difícil de todos para os outros é mesmo adormecer de mãos dadas. Já para nós é como respirar.
Amo-te.


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