O Infinito.
Uma vez o Júlio Gouveia, acerca da morte, disse-me uma frase
feita que desconhecia: “uma pessoa só morre duas vezes. Quando morre e quando é
esquecido.”
Fiquei a pensar naquilo muito tempo e até lhe dei razão em
certa medida. Mas, e há sempre um mas no caminho, o Júlio não era um crente.
Não tinha certezas nenhumas acerca dessas matérias.
Eu não. Sempre quis acreditar que a vida não acaba aqui. E,
ainda hoje permaneço com essa ‘certeza’. A vida não acaba aqui. Vou mais longe:
a vida não acaba nunca.
Mas voltando ao Júlio, como poderemos prolongar a nossa
memória para além daqueles que se lembrarão de nós?
Não pelos exemplos, mas pelo que deixamos feito.
Esta ideia persegue-me.
Nunca partilhei isto com ninguém. É curioso. Nunca o ter manifestado
com rigorosamente ninguém e agora o faça aqui em praça pública.
A vida não é ou não deve ser apenas uma sucessão de etapas tidas
como normais, ajustadas e aceites como tal, conforme a idade, os objetivos.
Enfim, as tretas do costume. Nascer, crescer, constituir família, procriar, ter
emprego e sucesso, envelhecer bem e, morrer. E, já agora, ter um bom funeral.
A vida não deve ser só isso, pois não?
Temos obrigação de deixar alguma coisa que fique para além de
nós. Que não seja material. Porque como sempre digo, se tiveres um bem e o
venderes, ficas sem o bem e gastas o dinheiro. Após isso ninguém se lembra nem
do bem nem do dinheiro.
Toda a gente, com o tempo, se esquece ou lamenta por algum
tempo, essa ou essas decisões.
A vida deve ou deveria ser outra coisa.
Só a arte nos salva.
E a arte é lata, porque é tudo o que permanece para sempre.
Seja num livro, num poema, numa peça de teatro, numa atuação,
numa música que se compõe ou canta ou interpreta. Numa escultura, num desenho,
num projeto, num sonho que fica, num filme que se faz, numa pintura, numa
entrevista, num discurso, num sonho que fica para outros realizarem depois de
nós.
Ou seja, a vida ficará sempre no infinito de quem a concebe,
quantas e quantas vezes contra a corrente do tempo e do modo.
A incerteza, a dúvida, a imaginação e a esperança são os
únicos ingredientes da imortalidade.
De todos eles, prefiro sempre a dúvida.
Por isso odeio quem tem certezas. E detesto ainda mais quem
tem certezas absolutas ou ‘lealdades forjadas’ em interesses definidos.
O que esta varanda tem feito de mim?
Já há algum tempo que me sinto completamente indiferente
acerca do que os 'outros' pensam.
Fui sempre o contrário disto.
Não sei se é bom se é mau. Isso nunca saberei. Nem me
interessa. Estou-me nas tintas. Sei de quem gosto e basta-me.
A imortalidade tem a ver com o infinito a que assisto
diariamente.
O infinito tem por obrigação tornar-nos pequeninos. Este mar
não o consegue. Não sei se é pela presença do promontório, isso não sei! Sei
que me obriga a fazer alguma coisa para além de mim. Como se de uma obrigação
se tratasse. Se o conseguirei ou não?
Nem sei, nem me interessa, por isso partilho este pensamento
assaz ridículo. Borrifo-me para as vossas opiniões.
Porque me basta a minha.
E a certeza de que o Júlio tinha razão e não tinha.
Saudades dessa enorme conversa na praia da Vieira onde te
encontrei a dormir num sábado à tarde no carro bati ao vidro, … acordaste, olhaste
para mim e eu disse, baixinho:
“Bom dia velho!”
“Entra aí puto.”



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