As minhas terras.
Nas coisas da Nazaré, o meu pai nunca ajudou a minha mãe.
Desprezava quase todos os cunhados. E tinha razões para isso.
Ficou sempre sozinha nessa enorme contenda. Ela e a irmã, uma
coitada.
Foram miseravelmente roubadas claro.
Vinte e muitos anos, com a indiferença absoluta do meu pai e
a crença da minha mãe nos irmãos.
Resolvi tudo com um enorme grito e com um número brutal em
cima da mesa.
Passaram depois disso 30 anos.
Eu e o meu primo Zé.
Hoje, cada um tem a sua casa e o mesmo terraço.
Não existe nada melhor na vida que as coisas que nos custam
muito a conseguir.
Por aqui ando, por aqui estou e por aqui ficarei sempre.
O meu avô Henrique era um pobre homem, guarda livros e
comerciante.
Teve uma boa loja na Nazaré.
Foi vereador da Câmara de Alcobaça aquando da criação do novo
Concelho da Nazaré.
De novo, vereador da nova Câmara do novo concelho recém-criado.
Perdeu tudo numa tempestade e ficaram apenas com um casebre
na foz, onde hoje vivo num terceiro andar.
Nessa altura os meus avós foram viver para Leiria.
A minha mãe sempre trabalhou desde miúda para custear os seus
estudos.
Uma vez foi empregada do avô da Helena na padaria que existia
no centro de Leiria.
As curiosidades que a vida tem!
Não é por ter sido minha mãe, não é por isso, mas nunca conheci
ninguém com tão boa alma como ela.
Fervia, tal como eu, em muito pouca água.
Depois não era nada com ela.
Só que com uma enorme diferença.
Não quanto ao perdão, porque nisso sempre fomos iguais. Só
que ela ‘esquecia’ e ai de quem lhe dissesse que isto ou aquilo se tinha
passado com pessoas de quem gostava muito ou amava profundamente.
Era tudo mentira.
Nada se tinha passado.
Eu nunca serei assim.
Tenho memória, enquanto a tiver evidentemente.
Nada tem que ver com perdão.
Apenas com memória.
Nada mais.
Por aí, pela Vieira, tenho as minhas referências. Aliás as
minhas maiores memórias, saudades e exemplos.
Hoje, não me revejo em nada disso.
Infelizmente.
Vivem todos vós nos tempos dos instalados num partido
político acrítico e acomodado que produz coisas e apoia outras, sem uma carta
de desenvolvimento, com um capataz na Junta, uma velha tida como culta, um
oportunista desconhecido que quer ser o próximo e uma assembleia de ‘votadores’.
E será assim por muitos e bons.
Não estou a fazer a apologia da Nazaré. Nada disso, até
porque desconheço isto, nem quero conhecer. Limito-me a lamentar o estado de
mediania a que a minha terra chegou.
E isso basta-me para me sentir desconfortável.
Seis mil pessoas,
tolhidas e caladas, com tudo por fazer e pensar.
A continuar assim, demorará muito a chegar a algum lado, digo eu que nada
quero nada valho e nada sou.



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