Aos Sinistros da Vida.
Ontem dormi bastante mal. Coisa que não me acontece desde que
vim viver para a Nazaré.
Só que ontem só via e acordava com as caras dos Silva
Rodrigues à porta do MEU espaço, porque há um mês lhes marquei dia e hora para
retirarem o que ainda por lá está, desde que lhes enviei o mesmo pedido em Março
passado. Facilitei-lhes a vida. Ficou por lá um balcão, uns dossiers e outras
coisitas da treta.
O contrato caiu.
Escusava de escrever este texto, mas por mais anos que tenha,
há coisas que me repugnam para lá do que posso suportar.
Arrisco-me a perder argumentos em tribunal com este texto,
mas também, estou-me borrifando para isso. Sinceramente.
No dia 28 de Janeiro o telhado da minha casa quase
despareceu, como tantos e tantos outros.
Fui ver o Benfica/Real Madrid com o João. O António
prescindiu do seu bilhete para o oferecer ao meu compadre e melhor Amigo Rui
Rodrigues poder assistir a esse inesquecível jogo.
Ficou o Tóino nas roulotes a beber imperiais à nossa espera.
Grande jogo.
Nessa noite não havia nada a fazer.
Foi a Kristin que nos aconteceu e todos pensávamos que teria
sido ‘apenas’ o vento a destruir-nos, mais uma vez.
Mas não foi.
Foram semanas de chuva intensa.
Lonas, telhas emprestadas e casas alagadas. Prejuízos imensos…
Tenho 4 artigos nas finanças. Não sou um tipo rico,
contrariamente ao que muitos julgam.
Perdi muito. Como todos perdemos.
No segundo ou terceiro dia de chuva, com os meus filhos a
colocar lonas, telhas pedidas emprestadas aos voluntários que se concentraram
nas instalações do mercado da Vieira, sem dormir e, como todos se devem lembrar
com chuva por todos os lados, só disse aos meus filhos: “se só temos direito a
24 telhas, são 24 telhas que lá vamos buscar. Nem mais uma. Os outros também
têm falta delas”.
O Café Liz estava aberto com luz proveniente de um gerador e
com a casa sempre cheia de clientes. Era normal. Toda a gente desejava sair de
casa.
O proprietário, ululante, porque era o mais esperto de todo o
reino de aquém e de além-mar.
De Monte Real à Praia da Vieira não havia nenhum
estabelecimento aberto. Só o velho Café Liz, com um gerador de porcaria e com
todas as luzes acesas e a chover lá dentro como na rua.
Entrei lá com os miúdos e vi um chapéu de praia agarrado ao
teto virado contrário, com um buraco na lona para poder escorrer toda a água
para um balde de 200 lts que era despejado na rua assim que enchia.
Aquele imóvel foi construído em 1905, e teve diversas obras.
Na estrutura e na sua estética, como todos os vieirenses sabem.
Só que toda a sua estrutura é de madeira.
Temi pela segurança dos seus clientes, caso acontecesse uma
desgraça por cima de outra e alertei o meu inquilino, com uma mensagem por wa.
A porta continuou aberta.
Depois disso, o meu filho António que é um miúdo bastante
equilibrado e sensato só me pediu,
enquanto substituíamos telhas e limpávamos mais de 6 cms de altura de água no chão com
muitos baldes a segurar toda a água que nos caia em cima, disse: “telefona ao
Rui Alberto, vocês são Amigos e ele fala com o Nuno”.
Eu já tenho a idade certa para acreditar no que acredito e
não acreditar no que não acredito, mas fiz-lhe a vontade e telefonei.
Não obtive qualquer resposta ou intenção.
Ajoelhei e chorei para dentro como sempre faço.
Por cima daqueles 6 cms de água no sótão e vi que não havia nada
a fazer. Aquela gente continuava como sempre foi.
Os dias foram passando e a chuva não.
Essa não passava. O café aberto. Casa cheia e luzes acesas. A
GNR não podia fazer nada, a Proteção Civil também não.
Caso acontecesse alguma coisa a algum cliente dos que enchiam
o café Liz a responsabilidade seria minha.
Foi apenas isso que me moveu sempre. A preocupação com os
outros.
Solicitei, em desespero, uma vistoria à Câmara Municipal que
se realizou e apresentou conclusões execráveis, dando-me 5 dias para fazer
todas as obras a que me via obrigado e recusando admitir que a tempestade tinha
sido responsável pelo ocorrido no imóvel e até com uma ameaça de coima.
No dia 14 de fevereiro recebo por mail essa notificação da
vistoria e passei-a ao meu inquilino que, por despacho do presidente da Câmara se encontrava obrigado a fechar
coercivamente o seu estabelecimento.
Tal não ocorreu.
E continuou a não ocorrer.
Por essa altura, o executivo permanente encontrava-se
extremamente ‘confuso’ e recorreu a pareceres internos e externos. O inquilino
foi aproveitando, até que foi obrigado a fechar o estabelecimento com a entrada
da GNR, Proteção Civil e Técnicos da Câmara.
Realizei as obras. Todas as obras a que me encontrava
obrigado pela Câmara. Foram retiradas as grades para prevenção de segurança de
pessoas e bens que se encontravam na rua.
O contrato de arrendamento terminou, como o inquilino foi
devidamente informado em março passado.
Não retirou, como era sua obrigação, todos os bens.
Foi notificado há um mês que ontem teria de retirar o que lhe
restava.
Eis quando não aparece, destrói a fechadura utilizada aquando
de todas as obras pelo empreiteiro. Resolve não estar presente no seu novo
estabelecimento comercial, deixa uns recados à filha que contradiz passadas poucas
horas e, enquanto isso, o primeiro Secretário da Assembleia Municipal e sua magnífica esposa passam vagarosamente
pelo velho Café Liz às horas pré estabelecidas (10.00h) para que tivessem sido recolhidos
os materiais que faltavam.
Depois disso, lá pelas 15.00 h, telefona-me o meu filho António, com 23 anos, para enviar
um recado do Senhor Nuno Silva Rodrigues, que não podemos entrar em espaço privado, mas que deseja fazer um acordo.
Sinceramente, estimo bem que se fodam todos e que façam
acordos com a puta que os pariu.
Fiz bem em não ter ido à Vieira.
Por dois motivos.
Primeiro, porque não tinha qualquer paciência para dar beijinhos às senhoritas cínicas e hipócritas da vida que frequentam aquele estabelecimento e durante uma vida inteira foram visitas da minha casa. Não respeito essa gente, que ia visitar a minha tia em bando, com tempo e assunto contado. Cínicas da vida.
Segundo, porque tinha esbardalhado o Nuno se
lá tivesse entrado. Já o ‘Código Civil Concelhio’, esse nunca
aparece. Só com os braços no ar a dirigir um coro de galinhas ao Domingo numa Missa
com um Padre que disse num recente Sermão que o Sal tem 95 nutrientes. A inteligência em estado puro.
Estão todos bem uns para os outros.
Terra de merda!
Só que, infelizmente para muitos e felizmente para os meus filhos, eu ainda sou dono daquilo que é meu. E eles, daquilo que deles será.
Mais cedo, que mais tarde, porque eu tenho muito mais que fazer.



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