A minha Tia e a minha ausência de perdão ou tolerância.
A minha tia foi a minha mãe.
Sempre.
Mulher difícil. Tão difícil, quanto inteligente, corajosa, culta, linda de morrer. Altiva e profundamente meiga.
Sempre uma leoa a defender-me, como sempre defendeu os seus.
Dentro de portas, extremamente lúcida, por vezes fria e até
cruel.
Uma Mulher poderosa.
Adoro mulheres.
Cresci e vivi sempre numa casa de mulheres.
Difícil tarefa, não restam dúvidas.
Um dia definiram-me desta forma:
“Tu és uma península. Rodeado de mulheres por todos os lados,
menos por um.”
Talvez por isso tenha construído uma relação tão forte com o
único homem da Casa. O meu Pai. O mais justo dos justos dos homens que alguma vez conheci.
Amei muitas mulheres.
Sempre me perdi de amores.
Sofridos tantos.
Sofridos todos.
Hoje, e nestes tempos, quando me lembro da minha tia, só
sinto, toda a enorme força que ainda me transmite a sua inabalável memória.
Não são saudades.
Essas serão eternas.
Como de todos os meus mortos.
Não é a saudade dela que me conforta.
É a presença.
O exemplo e sobretudo a coragem de quem nunca permitiu ser
rebaixada. Em circunstância alguma, como tantos e tantas que reclamam a sua
memória, com reverência hipócrita e sinistras formas de ser e de estar. E, o
que mais me revolta, falarem e escreverem acerca dela.
Tristes cínicos.
Conheço-os a todos, um por um.
E lembro-me de tudo.
Nunca terão o meu perdão ou complacência.
Nunca!
Há memórias que nenhum tempo apagará, por mais que passe.
A gente vê-se no dia 12 de Dezembro.
Olhos nos olhos e palavra contra palavra.
Como eu gosto!
E ela também, já agora.
O meu pai foi comunista e hesitou, logo após o 25 de Abril, entre apoiar o Mário Soares ou Sá Carneiro.
Estalou uma discussão num almoço em minha Casa, com a minha tia a acabar a conversa, com esta frase:
"Óh Armando!!! Apoiar um homem que foi da Assembleia Nacional?! Devias ter vergonha em sequer pensar estas coisas!"
Nunca tinha contado isto.
Pôs o dedo na ferida sem qualquer cerimónia. O meu pai ficou, calado, levantou-se e nunca mais se falou no assunto.
Orgulho!
Grande Mulher.
Tinha 47 anos e a quarta classe.
É por essas e por outras que detesto quando alguém me chama dr.
Doutor é médico.
O resto, são licenciados em alguma coisa, como quem tira uma licença de caça ou a carta de condução.
Se a minha mãe lesse este texto, matava-me. Essa sempre gostou de doutorices.
Mas essa tirou a Magistério Primário, a trabalhar desde os 12 anos, fez a Escola Comercial e foi Regente Escolar durante mais de uma década.
Houve um tempo em que, com a porcaria do 'Acordo de Bolonha', os cursos superiores passaram a ter 3 anos e algumas professoras primárias foram transformadas em doutoras, com um 'paper', como a Cidália Ferreira e a Ministra da Cultura da Vieira.
Quando penso nestas figurinhas e me lembro da minha tia, com a quarta classe, sinto repugnância.
Não por elas, mas pelos tempos.
Tristes tempos estes.
Plenos de mediocridades, de fingimentos breves, de máscaras e de
coisa nenhuma afinal.



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