A falta que me fazes.
O meu pai morreu-me nos braços.
Amou-me profundamente, desde o dia em que nasci.
Éramos totalmente diferentes, apesar de ansiosos os dois. Tínhamos
e tivemos sempre uma postura diametralmente oposta com os outros.
Não nos valores, na coragem ou nos princípios.
Feitios.
Não me recordo nunca de me ter elogiado ou sequer ter
manifestado regozijo por algum sucesso meu, que os tive em manifesta
abundância.
Os fracassos aconteceram-me todos após a sua morte.
Era um tipo discreto.
Na felicidade e na infelicidade também.
Um homem profundamente sério, tal como eu também penso ser.
Escrevia-lhe muitas cartas quando estudava em Lisboa. A
nenhuma respondeu.
A nenhuma.
Por vezes enviava-lhe poemas de diversos autores pelo
correio.
A nenhum respondeu.
Fui sempre um excelente aluno até entrar na Universidade. Nesses tempos e nessa idade dispersei-me por muitos outros 'interesses' e fui um
aluno medíocre.
No dia do seu funeral, e apesar da chuva miudinha, lembro-me
de duas coisas: ter-lhe dado razão, quando ‘uns canalhas com quem não falava’
há 4 anos me terem apresentado ‘os sentimentos’ e tudo ter posto atrás das
costas. Tal como ele me tinha avisado muitos anos antes: “tu não sabes do que um
homem é capaz de fazer no dia em que leva o seu pai à cova”.
Aconteceu.
O outro momento de que nunca me esquecerei foi o enorme
abraço que dei ao Alfredo João que, como sempre chegou atrasado e interrompi o
cortejo ao cemitério para o abraçar muito, muito, muito e só ouço entre
soluços: “desculpa o atraso e a roupa, não tive tempo para vestir um fato. Desculpa lá puto!”
Digo isto, porque me tenho lembrado do meu pai constantemente.
Uns dias após aquela imensa multidão que me ajudou a
acompanhar o velho Armando Teodósio ao cemitério, enquanto arrumava o seu escritório
devagar, de entre todos os seus papeis, encontro escondidos por baixo da capa da sua
secretária, o meu diploma da Escola Domingos Sequeira, onde pontificavam dezoitos e dezessetes e ainda todas as cartas que lhe tinha enviado de Lisboa.
Escondeu tudo, onde só ele as poderia ver, ler e reler, todas
as vezes que quisesse.
Quando me deparei com tudo aquilo guardado, daquela forma e naquele
local, pensei apenas:
“tanta coisa que ficou por dizer. E agora é tarde demais.”
Não imaginas o que tenho passado ultimamente ou talvez tudo vejas
e digas para ti mesmo:
"Eu avisei-te!
Com aquela gente é sempre assim!”
A Nazaré tem-me feito bem, sabes? Provavelmente nunca mais daqui sairei.
Quem diria?
Amanhã vou à pesca sozinho a tarde toda. Posso não apanhar nada. Nem interessa. Estarei horas e horas frente ao mar.
Basta-me!
Para voltar para casa na mais absoluta Paz.
Nem imaginas pá.
Nunca lançaste a cana ao infinito.
O teu horizonte sempre foi outro.
Provavelmente muito maior que o meu.
Provavelmente.
Cultivavas o silêncio e a sabedoria que o silêncio encerra.
Eu não sou capaz.
Como me disseste um dia a ralhar comigo:
"és tal qual o teu avô."
Foi o único elogio que me fizeste.
Ficas a saber.
Nem te deste conta disso.
Nunca te deste conta disso pai.



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