Quem desdenha, quer vender!



Automatix é uma personagem inigualável nos livros de Astérix, o gaulês. Ferreiro, abrutalhado, doido para a pancada com os romanos. Tem uma máxima recorrente que deriva da sua profissão: “só devemos bater no ferro enquanto ele está quente”.

Lembrei-me dele hoje, a propósito da Petrogal retirar os depósitos das antigas bombas de gasolina e entregar à procedência o terreno e com isso terminar definitivamente com a estratégia chico-esperta do advogado do diabo, que exigiu essa ‘demarche’, por forma a permitir a dilatação ou prolongamento indeterminado ou perpétuo do pagamento de rendas à Comissão Fabriqueira. Nessa altura, esta microempresa petrolífera pretendeu entregar ao senhorio esse espaço, aquando da retirada de todos os materiais visíveis que ocuparam, sem qualquer retorno comercial durante anos e anos.

Tal não foi possível, porque os depósitos teriam de ser removidos. São chico-espertices, iguais ao ‘trespasse por doação do café’ que afinal teve pagamento.

Um dia houve que eu e a minha tia tivemos necessidade de vender um terreno a um confinante.

Tinha um projecto aprovado para a construção de dois apartamentos, T2, com amplos terraços a poente, varandas, uma loja e uma cave com quatro lugares para estacionamento.

Propusemos o negócio à Comissão Fabriqueira por 40.000 €. Ofereceram 20.000 € com a seguinte frase (a negociar).

Escrituramos por 30.000 €.

Após a assinatura, vim fumar um cigarro, devidamente acompanhado pelo advogado do diabo que se encontrava lá de corpo presente em representação da Santa Madre Igreja e que me diz, com aquela altivez que lhe é característica: “Foi uma chulice. Alguma vez aquele terreno valia tanto dinheiro. Eu não concordei com este preço”. A nada respondi e trouxe o cheque que, nessa altura tanta e tanta falta nos fazia.

O seu irmão, ilustre empresário do ramo da restauração e bebidas, uma vez chamou-me em público a mim e à minha tia, a propósito desse negócio: “tu não passas de um vendedor de quintais”.

O tempo passa sempre.

Por todos nós.

Iremos assistir ao preço pedido à Câmara pela aquisição de um terreno vazio onde nada pode ser construído.

Não posso deixar de me sentir divertido com tantas incongruências e faltas de carácter. Sempre vindas dos mesmos.

Iremos ver!

Na segunda semana de setembro começam as obras de recuperação do meu prédio, com as devidas autorizações pedidas e concedidas, tanto pela Câmara Municipal, como pela Petrogal, SA.

Fiquei com os apartamentos totalmente destruídos, com a tempestade, apesar de se tratar de um imóvel de betão armado e com 40 anos e diversas obras de manutenção concretizadas, desde que o herdei.

É da vida.

Quando levamos pancada, temos de nos saber reerguer.

Já há outros, que mesmo quando a mesma vida lhes é adversa só conhecem um caminho, o do aproveitamento gratuito, sem princípios, memória e dignidade.

Que reconstruam por lá o antigo cemitério em torno da Igreja Matriz.

Iremos saber quanto vão pedir ao município.

Oportunamente.

Como dizia o Automatix: “só devemos bater no ferro enquanto ele está quente”, como é o caso!

Como todos sabem, o valor de um terreno nada tem a ver com a sua área apenas, mas principalmente com o que lhe é permitido construir legalmente.

Neste caso, rigorosamente nada. Ou coisa nenhuma, o que é a mesma coisa.

Ofereçam ao domínio público, mas não o farão, porque alguém não o irá permitir.

Como diz o povo na sua imensa sabedoria: "nem f..e, nem sai de cima".

Que grosseria de frase a minha, mas o povo é grosseiro. Como eu! Só que não é estúpido!

Hipócritas!

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