Os asquerosos tipos do Chega.
Sempre foi mais fácil para mim imaginar a vida como a
travessia num barco. Não sei porquê, até porque nunca viajei muito dessa forma.
Talvez por isso, tenha tanta pressa em tirar a carta de
patrão de costa.
Não para comprar um barco. Nada disso.
Apenas para poder pedir o favor ao único armador da Nazaré para
ir à faina com eles.
14, 16 horas de trabalho contínuo.
Duro, incerto e inseguro.
Irei demorar cerca de um ano a atingir essa meta.
O fascínio de ver os arrastões a saírem e entrarem no ‘meu
porto de abrigo’ é indescritível. Tenho-o assistido a todas as horas. De manhã,
madrugada, ao pôr do sol e à noite.
A partida para o certo e incerto é uma manifestação do
sublime, como poucas outras são.
Lá voltam sempre, carregados de peixe e com bandos de
gaivotas a voar por cima, como se fossem uma nuvem compacta.
Nestes tempos, não é fácil ir nessa faina, a simples pedido.
Temos de ultrapassar algumas burocracias.
Tirar a carta é uma delas.
Irei fazer isso, com elevado prazer, apenas porque outro prazer
maior me espera. E eu, nestas coisas sou teimoso o quanto baste.
Nestes tempos, a tripulação das cerca dos 12 arrastões do
mesmo armador da Nazaré, são compostas por asiáticos que vivem miseravelmente e
trabalham como ninguém deseja ao seu pior inimigo.
São esses os inimigos dos eleitores do Chega.
Aqui mesmo ao lado da minha casa.
Já eu só queria aprender com eles.
Aprender.
Não para ganhar dinheiro. Só para aprender.
Pudessem todos vós, filhos da puta cheganos alguma vez sentir
alguma coisa parecida. Tentar vestir a pele dos outros!
Aqueles que abandonam o seu país, a sua família, se sujeitam
a tudo para comer e enviar uns restos a quem ficou por lá.
De facto, isto não é o Bangladesh.
Canalhas.



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