O Rei Vai Nu.
Apesar destes tempos de todos os insultos breves, boutades e
mentiras cirúrgicas e alarmistas, persiste ainda uma mania bem portuguesa de
não escrever ou falar sobre coisas que toda a gente sabe, mas não diz. Simplesmente
porque não deve dizer.
Do género: “era melhor estares calado”.
Ou ainda, “o que ganhaste com isso?”
E a vida lá vai seguindo o seu curso próprio dos sem alma,
nem propósito, que tudo dizem à “chucha calada” e nada confirmam na frente dos
outros.
É mais fácil ser-se assim. Sempre foi.
Não se ganham antipatias, nem comentários negativos.
Nunca fui politicamente correto e sempre perdi (ou ganhei,
sei lá!) com isso. Não o digo nem como exemplo de comportamento, nem como nada.
Sempre houve coisas que me irritavam e com as quais nunca
convivi muito bem.
Sou economista de formação e tirei o curso numa das melhores
faculdades do país. O ISEG.
Nunca fui um aluno de excelência, porque nunca gostei da
minha opção académica.
Quando entrei no banco comercial português, havia e ainda
deve haver um lugar hierárquico chamado de diretor coordenador. Uma espécie de
direção de zona.
Conheci muitos imbecis nessas funções. Gente da Opus-Dei e
outros que nem isso.
Todos licenciados em alguma coisa.
Chamávamos-lhes reverencialmente doutores. E eles
tratavam-nos por tu, com um misto de paternalismo e falta de consideração
académica e profissional, apesar de termos as mesmas idades.
Um dia, calhou-me um tipo de sangue azul. Frederico Lupi de
seu nome.
Um tipo de direita, pouco dado ao trabalho. Da família Pinto
Basto. Vindo da Casa Sotto Mayor. Regressava de uma operação do bcp na Grécia e
não estava muito satisfeito com as suas novas funções.
Fez um dia uma reunião com a equipa onde me incluía e
resolveu dar uma de economista. Tinha tirado o curso na Universidade Nova.
Começa por elogiar o Francisco Louçã, que tinha sido meu
colega e amigo no ISEG, apesar de muito mais velho que eu.
E inicia uma aula, a despropósito, sobre teoria monetária,
discorrendo sobre a ‘velocidade de circulação da moeda’. Um tema muito difícil e
sem qualquer sentido para aquela reunião de quadros, mas que, na sua cabeça,
ninguém entenderia.
Essa teoria, basicamente, pretende ilustrar a importância
econométrica da adição de mais moeda no sistema financeiro e o seu impacto em
toda a economia, quer seja ao nível do consumo privado e público, quer das
contas públicas.
Para além das cadeiras de história e de geopolítica, as
disciplinas de macro sempre me fascinaram.
Por outro lado, tinha sido amigo do Louçã, que ele pretendeu
minorar, dizendo acerca dele ser um grande economista “com quem
ideologicamente nunca me identificarei”.
Fiquei a ferver com tudo aquilo.
E perguntei: “Dr. Frederico Lupi, nós não estamos aqui
para saber rigorosamente nada acerca das suas preferências políticas acerca
deste ou daquele ilustre professor de Economia. O senhor não conhece o doutor
Francisco Louça. Eu sim. Nunca foi seu colega, nem aluno. Sobre a velocidade de
circulação da moeda, nada tem que ver com o propósito desta reunião. Aliás 80%
dos presentes nem a entendem, nem necessitam de entender. Responda-me a uma
coisa: porque é que todos o temos de tratar por senhor dr. e o senhor nos trata
por tu? A Universidade Nova é melhor do que o ISEG onde me formei?”
Escusado será dizer que um filho dos ‘Pinto Basto’ esteve bem
na resposta. Ou neste caso no risinho de merda, com que fingiu não lhe dar
importância. Coisas típicas de gente fina e com pedigree.
Depois lixou-me.
Muito tempo depois.
Hoje tem os bens penhorados e responde pela sua gestão danosa
numa empresa de capitais públicos onde os sócios se sentiram defraudados.
O seu adjunto, diretor de balcão, lambedor de cús como tantos
outros, é hoje um ‘caixeiro’ viajante’ do banco.
E eu estou a escrever este texto na Nazaré, sem dívidas
financeiras, morais, éticas e de consciência.
Tudo isto vem a propósito de dizermos o que pensamos.
Quando se tem opinião e ela se manifesta, talvez porque seja
mais forte que nós, e, (tristeza das tristezas!) é negativa, muita gente se
levanta contra ela.
Há verdades que parece não se poderem dizer. Apesar de serem
verdade. Seja acerca da nossa terra, seja acerca de pessoas, seja acerca de
circunstâncias. Passadas ou presentes.
Há sempre uns filhos da puta que adoram vestir o papel de defensores
da ‘Fé e do Império’ para nos denegrirem.
O problema não são as nossas opiniões.
O problema é quando alguém diz o que todos vêm. Tal como na
história de 1837 de Hans Christian Andersen:
"O Rei Vai Nu" que é um famoso conto de fadas
escrito e que serve como uma metáfora sobre a vaidade, a hipocrisia social e o
medo de contestar o absurdo imposto pela maioria.
Para pessoas sem mundo nem cultura, tudo vai bem, desde que
não se ponha em causa o que não se deve. Simplesmente porque parece mal.
"Essa Vieirinha de merda", como escrevi recentemente e tanto ofendeu uns ilustres.
De merda.
Cínicos, sem mundo, cultura, literacia e provas dadas na sua terra.
Esses sim, os vencedores de todas as contendas futuras.



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