Vieira.



O meu pai nunca ajudou a minha mãe com as coisas dela da Nazaré. Desprezava os cunhados e sempre teve razões para isso. Uns escroques, quase todos.

O meu pai era assim.

Deixou-a sempre sozinha com as suas coisas.

Fui eu que um dia bati com a mão na mesa com mais força que a mesa poderia suportar e resolvi tudo em dois segundos.

Resolvi uma vergonha que se distendia há mais de vinte anos, simplesmente porque entrei numa pequena sala e vi um primo e uma tia que puseram uma senhora de mais de 70 anos a chorar desesperadamente.

Era a minha mãe.

Ofereci mais que o dinheiro de 1 metro quadrado na avenida da Liberdade em Lisboa e ficou tudo resolvido. Por um bocado de terreno a que moralmente nunca tiveram direito.

Nunca pensei nessa altura ter conseguido esta casa, com esse gesto intempestivo.

Passaram mais 20 anos e hoje vivo na Nazaré e nunca mais deixarei de cá viver.

Temos construído o nosso conforto devagar, como gosto de fazer as coisas.

Adoro isto na direta proporção que passei a odiar a Vieira e tudo o que representa.

Só sinto a falta do cheiro a iodo. Nada mais que isso.

Detesto as supostas elites da Vieira, as tricas e as sinistras hipocrisias que por aí convivem alegremente.

Aqui saio de casa e ninguém me conhece nem conheço ninguém. Para quem sempre esteve habituado a encontrar as mesmas pessoas diariamente com as mesmas conversas, a Nazaré tem sido uma libertação.

Nem é melhor nem pior.

Não tem nada a ver.

Não conheço ninguém. Ponto.

Nunca fiz tanta praia como agora. Nunca nadei tanto como agora. Nunca li tanto como agora, nunca abri a porta de casa a tanta gente que adoro com tão puro prazer, como agora.

Não me detenho em conversas de taberna onde tudo se ouve dos valentes da vida que tudo dizem, mas nunca o dizem nos locais próprios. 

Coisas de valentes. De taberna e de petiscos.

Os meus filhos têm-me limitado a sair completamente daí.

Respeitei essa vontade.

Neste mandato autárquico a minha terra vai crescer e começar a conhecer o seu desenvolvimento futuro.

Sinto-me indiferente a tudo isso. Mas os meus filhos não.

Identificam-se com a sua terra.

Já eu, deixei de a ter.

Não passei a ter outra, porque isso seria impossível. Deixei apenas de me reconhecer e sofrer por esse 'espaço'.

Estou bem onde estou.

Quanto ao resto que virá para nós e será muito, ficará pronto e com a minha assinatura.

A minha e a dos miúdos.

Só as minhas coisas coisas me interessam e detêm a minha atenção.

Nunca, por nunca, pensei atingir este patamar, que sempre critiquei nos outros.

A vida é mesmo um caminho surpreendente.

Não se trata de egoísmo. Nada disso. 

Talvez se trate de razão. 

E de anos vividos.


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