Sun Tzu.
A todos os silêncios cúmplices.
Após a tempestade Kristen, passei uma semana na Vieira, tal
como todos. Sem luz, sem água, sem comunicações.
Quando chegou a luz, beber uma cevada em casa era um luxo.
Como tantos pequenos luxos que iam e vinham diariamente.
Fui viver para Leiria.
Chovia copiosamente em minha casa e no meu prédio. Como em
todas as casas e em todos os prédios do nosso concelho.
Tinha apenas uma preocupação: os clientes do Café Liz, que se
encontrava repleto de gente irresponsável que o frequentava diariamente. Com um
gerador ligado e a chover lá dentro, sendo a água que caia copiosamente do teto
‘amparada’ por um guarda sol virado ao contrário e pregado ao teto com um
buraco na lona que permitia que a mesma escorresse para dentro de um enorme
balde de plástico de mais de cem litros que era deitado na rua quando enchia.
Pedi, nessa altura por escrito ao proprietário do negócio que
fechasse as suas portas por motivos de segurança de pessoas e bens.
Tal não se verificou.
Solicitei, em desespero de causa, uma vistoria camarária ao
imóvel, que com 121 anos e face à intempérie, poderia fazer comprometer a
segurança dos clientes.
Foi essa a minha única preocupação.
Decorridos uns dias vieram os técnicos da Câmara da Marinha. Quatro
ilustres figuras. Decidiram dar-me 5 dias para fazer todas as obras decorrentes
do temporal sem que tivessem considerado que esse fenómeno da natureza tivesse
sido responsável pelo ocorrido.
Informei o meu inquilino do despacho da Câmara que o obrigava
a encerrar definitivamente o estabelecimento, no mesmo dia em que o recebi.
Revoltei-me com essa sinistra decisão dos cinco dias para
fazer as obras e do facto da tempestade não ter motivado todos os estragos
verificados.
E procurei defender-me no único meio de que disponho, que é
este blog.
Muita gente me criticou por isso. Importa-me pouco essas
delicadas e ’prudentes’ posturas.
Contratei um gabinete jurídico e outro de engenharia civil
para defender a minha posição.
Ganhei a prorrogação no prazo das obras e consegui incluir os
efeitos da tempestade no destelhamento do telhado da minha velha casa.
Digamos que não foi pouco. E digamos também que não foi nem
fácil nem barato.
Caso não tivesse agido desta forma, pergunto, “o que seria de
mim nesta altura?”
Estaria, como veio escrito no primeiro relatório municipal a
pagar uma coima.
O inquilino saiu, apenas porque as forças de segurança o
obrigaram.
Fiz todas as obras a que me obrigaram.
E paguei-as. Sem ter recorrido a pedidos de apoio de qualquer
espécie.
Nesse mês de fevereiro, tantas e tantas foram as noites, que,
a viver em Leiria nunca consegui dormir. Carregado de inquietações e problemas.
Passava-as na varanda das traseiras a andar de mãos atrás das
costas de um lado para o outro, tipo fera de circo enjaulada.
Fuji para a Nazaré para ganhar horizonte e paz.
Tudo se foi resolvendo, porque o tempo tudo resolve.
Emagreci 15 kg, porque tal como a minha mãe, quando estou
extremamente preocupado perco o apetite e o sono.
A minha velha casa não caiu com a intempérie.
Caíram outras coisas. Talvez maiores. Talvez menores. Mas
caíram. Para sempre.
Avizinham-se tempos novos.
Difíceis é certo, mas menores, por comparação.
Nessa altura em que passava as noites de lá para cá na
varanda da casa da Helena em Leiria, em desespero, telefonei ao Alfredo João,
que como sempre me diz coisas certas.
“Entre outras coisas não dispares para todos o lado e nunca demonstres as tuas fraquezas pá. Tens de ler o livro “a
arte da Guerra”.
Discordo totalmente.
São exatamente as nossas fraquezas que devemos sempre
evidenciar, porque quando o fazemos e o fazemos à exaustão, escondemos todas as
nossas forças. Existem sempre lados para onde não estamos a disparar. E o inimigo ataca sempre o que julga mais vulnerável, porque é de lá lá que vem o ataque. Visível.
Esse pensamento de Sun Tzu até pode estar certo. Aqui e ali,
mas faz-me sempre lembrar certas famílias que escondem os seus podres, como se
ninguém os soubesse.
E não comente.
E a verdade é que comenta em manifesta abundância.
Assim e comigo podem dizer tudo o que se vos aprouver. Nunca saberão a força que me envolve. A mim e aos meus três filhos.
Isso nunca saberão.
E não é pouca!
Mesmo nada pouca.
Só não sabem de onde vem.
Nós sabemos!



Comentários
Enviar um comentário