O Velho e o Mar.



Comecei a ler Hemingway talvez com 17 anos.

Lia os seus livros compulsivamente, retirando-os das estantes do meu pai e da minha tia.

Aquele tempo que os seus livros retratam, não era nem nunca foi o meu, só que aquela forma de escrita e a magistral maneira de o descrever era um fascínio.

Escuso-me de dizer os livros que li, até porque não interessa.

Foi um homem intenso.

Jornalista de guerra, repórter, romancista, caçador de caça grossa em África, pescador de espadartes nos mares das Caraíbas e bêbado.

Foi, por tudo isso, um homem substantivamente invulgar, contrariamente ao que a mediocridade das vidinhas breves e beatas possam dizer.

Homem de algumas paixões e escaramuças fortes. Nada a ver com estas merdas do costume. Dos nadas da vida.

Por isso ficou.

E, essencialmente, pela sua escrita sublime que tudo diz e transmite com uma verdade translucida.

Quando pescava um espadarte nas Caraíbas, agarrado ao seu cinto de segurança porque poderia adormecer, dizia: “tu não sabes o que eu sei”.

Começava a luta entre o homem o peixe. “tu, não sabes o que eu sei”, gritava aos seus amigos do barco, enquanto o espadarte se debatia vinha à superfície e mergulhava de novo.

“tu, não sabes o que eu sei!”, gritava ele.

Terminada a luta, com algumas falanges partidas da sua mão e o peixe ainda vivo no convés, matava-o com uma enorme faca e dizia: “o que não sabias é que tudo morre!”.

Lembrei-me de tudo isto hoje.

Por nada de especial.

É que este homem foi tão grande que morreu de uma forma maior.

Aos primeiros ou segundos ou terceiros sinais de demência agarrou na sua espingarda preferida de caça grossa e deu um tiro na boca.

Sabia, como sempre soube que “tudo morre”, e antes que morresse, deu o tiro!

Quem poderá dizer que isto é loucura ou cobardia?

Ou até mesmo pecado.

Que merdas de opiniões são essas, quando se trata de um génio?

E, caso não fosse?

PS: a propósito da eutanásia, da direita trauliteira e dos autoproclamados donos das opções livres dos outros

E também do facto de tudo ser efémero, porque quando baixamos à cova nada levamos.

Há por aí alguns que ainda não entenderam isso.

 

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