O Mindinho da Guerra dos Tronos.
Nunca serei um tipo fácil.
Tenho uma cabeça inquieta e uma alma permanentemente insatisfeita.
Em conflito constante, essencialmente, comigo próprio.
Reconheço que tenho algumas particularidades esquisitas,
porque extremamente compulsivas que me devoram muitas vezes à exaustão.
Há muitos anos que sou assim. Provavelmente sempre fui.
Com a música, os livros, os filmes e agora com as magníficas
séries que estão apenas a um clique de distância.
Há livros que li, quatro vezes, como ‘Os Maias’, por exemplo
ou 3 vezes, como ‘O Amor nos tempos de cólera’. Mas isso não é nada.
De músicas nem falo, porque sou perfeitamente capaz de passar
uma noite inteira a ouvir a mesma e a procurar todas as suas versões e diversos
intérpretes.
O pior mesmo é com os filmes e agora com as séries.
A título de exemplo, refiro ‘A Guerra dos Tronos’.
Vi 4 vezes a série inteira. O que, na prática significa 8
temporadas, com cerca de 10 episódios de uma hora cada um.
80 episódios vezes 4 são 320. Ou seja: 320 horas assistidas.
Digo isto, porque existem nessa série personagens
inesquecíveis e algumas extremamente perturbadoras no decurso de toda a série.
Hoje falo de uma das mais execráveis de todas.
O Littlefinger', ‘Mindinho’ para os seus mais íntimos.
Dono de um bordel de luxo na capital do reino. Membro do
Governo, com a responsabilidade do tesouro. Um cofre falido que apenas
contraía empréstimos para fazer realizar todos os caprichos do Rei absoluto e
com isso endividar-se permanentemente e colocar o reino em posição de cada vez maior fraqueza e vulnerabilidade nos braços do sogro do Rei vigente, que o pretendia substituir.
Um ser execrável. Divisionista, intriguista, mentiroso, que ia inteligentemente colocando uns contra os outros, consoante as suas conveniências. Matou e mandou matar muita gente de bem. Pôs famílias inteiras de mal umas contra as outras, sempre em proveito próprio.
Tinha crescido pobre e ressabiado, com convívio e proteção de
uma casa rica. Apaixona-se por uma das filhas do seu protetor, que não hesitou
em mandar degolar na primeira oportunidade em que isso o beneficiava.
Tinha uma frase curiosa. Aliás, era a sua filosofia de vida.
Mas dizia-a apenas aos seus pouquíssimos íntimos, ou seja, a algumas
putas do seu bordel, que, quando estava confuso, pensava sempre no pior que lhe
podia acontecer, para se encontrar sempre preparado para nunca ser surpreendido
pela vida e pelos seus azares decorrentes e próprios.
Na parte final da série, orquestra o assassinato de uma das
filhas da mulher que amou e tinha mandado assassinar anos antes. Esse
julgamento deveria ser presidido pela irmã mais velha da ré.
Tudo milimetricamente pensado e pronto para que nada
falhasse.
O julgamento ocorreu em frente de toda a corte.
Acabou de joelhos, degolado pela ré, a mando da juíza, sua
irmã, que se soube fazer de parva e tudo tinha entendido, depois de a vida a ter ensinado, com os anos a tudo entender.
Ficou-me dessa execrável personagem uma lição:
Quando estamos confusos, devemos sempre pensar pormenorizadamente
no pior que nos pode suceder para estarmos preparados para tais circunstâncias.
Não dou, nesta fase da minha vida, por mal empregue as 320
horas assistidas a essa obra-prima com o nome de “A Guerra dos Tronos”.
É que por vezes a realidade ultrapassa a ficção e por mais asquerosa que seja a nossa realidade e uma ou mais personagens ficcionadas, acabamos sempre por as conhecer definitivamente porque a vida obrigou-nos a conviver com elas todos os dias.
O Mindinho, coitadito, que morreu de joelhos aos pés da Juíza, que tentou manipular inteligentemente e pelo punhal da própria ré em frente de toda a corte e com o seu aplauso. Corte essa que sempre fingiu que o venerava.
Monumental série, não haja dúvida.
Como monumental vai ser a tua cabeça a rolar por um soalho qualquer da vida proximamente, porque nesta estória qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
A gente vê-se um dia destes por ai, "Lord Baelish".
Mais cedo do que imaginas!


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