O Comissário.



Com 20 nos lia o ‘Independente’ com algum espanto e até admiração. Era um semanário de direita e em minha casa lia-se ‘o Jornal’ e, por vezes o ‘Expresso’.

Ai de mim se chegasse a casa em Lisboa com o ‘Independente’ debaixo do braço. A minha tia HB nem dizia uma palavra. Olhava-me de soslaio e depois dizia que detestava o Vasco Pulido Valente e outros escribas de primeira água que por lá pontificavam.

Passei a lê-lo na biblioteca do ISEG às segundas.

Mas foi uma década muito boa em termos de jornalismo neste país. Isso foi.

E surge Paulo Portas, a verdadeira alma política e editorial do jornal. Um puto com pouco mais de vinte anos.

Muita água passou debaixo de muitas pontes desde o final dos anos 80 e todos os 90.

Muita água passou.

O ‘Independente’ faliu, ‘o Jornal' também, já o ‘Expresso’ manteve-se. Coisas de jornais cinzentos. Sempre sobrevivem. Como o ‘Região de Leiria’ que atravessou o fascismo, a liberdade e outras coisas acabadas em ‘áde’.

É da vida.

Nada contra. Nada a favor.

O anti europeísta Paulo Portas, ex-ministro do mais sinistro governo antes do atual, hoje ilustre professor universitário de geopolítica e comentador que muito aprecio, porque adoro ouvir e ver quem mais culto e inteligente que eu mostra ser, irá ser agora o novo ‘Comissário-Geral para as Comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal’.

Um dia ouvi o Raúl Solnado numa entrevista dizer que o barulho das palmas é uma droga extremamente viciante.

Achei graça à expressão nessa altura e nunca me esqueci dela, até porque comecei a consumir dessa droga em quantidades provincianas. De aldeia, de pequeno rebanho, e de parcas significâncias. De aparente barulho e nada mais que isso. O efémero em estado puro, disse-me o tempo e a idade.

Hoje, como li num texto do Carlos Esperança:

O Luís foi buscar para si a glória de D. Afonso Henriques, que bateu na mãe e afastou a sua influência ao derrotar na Batalha de São Mamede, em 1128, o amante Fernão Peres de Trava, que governava o Condado Portucalense numa “joint venture, expressão ainda não inventada, com a D. Teresa, senhora sua mãe.

E, como cereja do bolo, o Luís serve-nos como comissário-geral um exitoso facilitador de negócios, Paulo Portas, para as comemorações dos 900 anos.

No 8.º centenário Salazar mandou organizar o evento político-cultural mais marcante do seu Regime, oitenta e oito anos depois Montenegro, se lá chegar PM, terá a sua consagração.”

Depois pensei no Solnado, porque as palmas, o palco e o barulho do aplauso toldam o raciocínio dos que dele não sabem prescindir.  

Até na minha terra há quem padeça desse mal.

Há, pelo menos 4 anos!

Ou nas Comemorações do 25 de Abril ou na elevação da aldeia da Vieira a vila.

Tem sido recorrente. E em consequência, absolutamente ridículo, porque, como diz o nobre povo, tudo o que começa a ser demais cheira mal.

Começa a ser o caso. E a única coisa que vou lamentando é que o próprio nem se dá conta disso, talvez porque o som das palmas é sempre inebriante. Mesmo para o mais inteligente dos homens, como parece ser.


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