"Adeus ó Esteves!"



O que me separa deste texto que nunca partilhei, é o dia do funeral da minha tia em fevereiro de 2017.  Não me envergonho de o ter escrito. Não me envergonho de nada.

 

Talvez pela primeira vez, me sinta a um passo da loucura. 

Talvez seja isso.  

Desde que deixei de contar para a normalidade da vida e dos dias, fui ficando assim. 

Habituei-me. 

Como sempre nos habituamos a tudo o que a vida nos oferece. 

Neste caso, à inutilidade.  

Habituamo-nos. 

É sempre mais fácil. 

Nada fazer. 

Bebo copos, 

Fumo cigarros, 

Atrás de cigarros. 

Copos atrás de copos. 

Sem ninguém por perto. 

É mais decente assim. 

Deixaram de haver comentários. 

Públicos. 

Sei lá? 

Vou escrevendo, cada vez mais e a um ritmo alucinante, mas sinto-me a enlouquecer. 

A procura da virtude, do sublime e do infinito, por vezes acarreta estes riscos. 

Deitar tudo a perder,  

numa frase, numa virgula, num parágrafo. 

Escrever é um sofrimento, quando mais nada nos resta. 

Fiquei assim. 

Deixei-me ficar assim. 

Perdi tudo. 

Sem nunca ter perdido nada. 

Fui-me refazendo. Sempre na escrita, nos copos, nos cigarros, na música e na mais absoluta solidão. 

Quantas vezes me quis ir embora? 

Nunca tive coragem para isso. 

Talvez seja a razão de ter iniciado este processo de destruição lenta, tortuosa e demorada. 

Escrever é lixado. 

Sentir é pior ainda. 

‘A vida é nada’, como dizia o outro que entrou no mesmo processo e morreu novo, sem filhos, sem esperança, sem futuro e rodeado de versos por todos os lados. 

20 pessoas o levaram à cova. 

Parece que a última frase que disse foi pedir os óculos à enfermeira que nem tempo teve para os devolver. 

Pediu os óculos? 

Para ver o quê? 

Para escrever o quê? 

Pediu os óculos para nada. 

Morreu. 

E milhões de pessoas o leem hoje. 

Estas coisas não deixam de me fazer sorrir. 

Sinceramente. 

Acho piada. 

Ao grande Álvaro de Campos. 

O profundamente triste e lúcido Álvaro de Campos. 

Morreu. 

E de todos os que habitaram essa nobre Alma do Pessoa, foi o único, de certo, que pediu os óculos à enfermeira. 

Talvez para morrer a olhar para a morte.

De frente. 

Não teve tempo. 

Nem ele, nem a enfermeira. 

E muito menos a morte que se aproximava a passos certos. 

Morreu. 

Talvez a olhar para a ‘Tabacaria de defronte’. 

“adeus ó Esteves”. 

 Vieira, 17 de fevereiro de 2017.


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