A Vida é um enorme sorriso!

 


O número 22 do Largo da República ...

Nunca será um número qualquer para nenhum de nós.

Isso nunca será.

Foi a primeira porta que todos atravessámos, após o nosso nascimento.

Bem sei que poucos relevam rituais. Coisas parvas, ainda mais porque profanos. Exemplos simples e aparentemente sem significado, porque nada têm de divino, de sagrado e de importante. Já para mim, que os inventei, sem que ninguém os tivesse dito, porque sabia apenas que tinha sido a primeira porta que atravessei. Só por isso. Fiz questão que tanto o Manel, o António e o João por ela tivessem cruzado pela primeira vez. Acabados de nascer, tal como eu.

Criei esse ritual, que espero se perpetue, por anos e anos com os filhos e netos deles. Procurei ir-lhes ‘dizendo’ que aquela Casa para nós era Sagrada. Não por ser antiga. Não por ter sido construída pelo meu bisavô Jacinto em 1905. Nada disso. Mas porque o meu avô António nela viveu, sofreu diversas humilhações de alguma elite intelectual e política vieirense. Até da esmagadora maioria dos seus irmãos. O meu avô sofreu tudo isso. E com ele, todos os seus filhos. Sofreram imenso! E passaram-me esse sofrimento. 

Por aquela porta atravessou muita gente. Muitos canalhas da vida. Até o seu filho bastardo, que ele reconheceu (contra todos os parâmetros da época) que o pôs em tribunal mesmo sabendo que seria reconhecido como filho,  antecipadamente. Volta, para o seu Velório, pede licença para entrar, faz um discurso ridículo a renegar os seus legítimos direitos e passado uns meses sai com um cheque das partilhas. A muita coisa assistiu aquela nobre Casa. 

Tudo isso me foi passado. Tudo isso sempre, de uma forma ou de outra carreguei e fiz por passar aos meus filhos, porque apesar de não vivermos do passado, ele conta e conta muito na vida de todos nós. 

Quem poderá dizer o contrário da sua própria vida?

Quando atribuíram o nome do meu avô a uma ruela na Vieira, uma ilustre família houve que se despedaçou em impropérios vis e esconsos (sempre na sombra do tudo dizer e de quase ninguém ouvir), apenas porque o seu patriarca não tinha sido reconhecido com o mesmo galardão naquela altura? Ilustres figurinhas, algumas ainda hoje pontificam nessa nobre terra, tendo um dos seus filhos mandado um energúmeno borrar a preto (pela calada da noite) o nome do meu avô António na placa que tinha aposto o seu nome.

Coitados de todos eles. Já morreram todos. Outros, os de terceira geração lembrar-se-ão, certamente desse tristíssimo e edificante episódio. Mas esquecem-se, convenientemente. Eu nunca me esqueci! Tinha 9 anos, quando as minhas tias disseram ao meu pai para mandar limpar a placa borrada a preto em cima do nome do meu avô. A resposta foi: "quem a pintou de preto que a limpe". E assim esteve por mais de vinte e tal anos, até esse muro ser demolido para a construção de uma casa nova. Aguentamos silenciosamente tudo isso durante mais de duas décadas! O nome do meu avô António pintado a preto. Para regozijo de certa família. Ou de partes dela. Nunca o saberei, porque nestas coisas nunca se sabe. 

Nunca contei isto. Apeteceu-me agora.

Fui eu, primeiro como presidente da Biblioteca de Instrução Popular e depois como membro da Assembleia de Freguesia a recuperar a justa memória desse patriarca. Ilustre figura Concelhia e Distrital.

É por isso que existe, na entrada dos Talhões uma rua com um nome que esteve anos e anos esquecido. Fui eu que recuperei a sua esquecida memória. 

A vida tem sempre coisas destas.

Alguns dirão que foram ‘acasos’.

Não foram!

Foram vontades, critérios e respeito.

Porque a minha família o passou.

Fi-la perpetuar. Haja quem diga o contrário!

Nunca borrei o nome de ninguém pela calada e pelas sombras, como outros fizeram recorrendo ao serviço de terceiros, como certos ilustres intelectuais dos anos setenta do século passado. Agora usa-se a utilização de nomes de terceiros. Coisas dos tempos que vivemos hoje e da mesma cobardia de costumes.

Nesse número 22 do Largo da República, muitos Teodósios entrarão um dia, porque é aí que se encontra o nosso ninho, a nossa gruta, o nosso berço e  a nossa memória coletiva e nunca, por nunca mais, nesse edifício estará alguém que despreze, tudo o que somos e fomos, como aconteceu nos últimos 60 anos nesse R/C.

Na vida é fácil ser-se alguma coisa. É simples dizer-se ou pensar-se ser alguma coisa de jeito.

Por vezes basta fingir. E fingir em abundância e soberba e pretenso conhecimento. Dos factos, das coisas e dos homens. É fácil.

Só que, quando a integridade, a verdade, a decência e a honradez têm definição, essa porta do nº 22 do Largo da República da Vieira é uma das suas poucas fronteiras. A minha Casa é uma dessas.

Há mais, felizmente.

O António vai reconstruir essa Casa, sendo que essa porta nunca será demolida!

Demolidos para sempre foram os que nunca souberam dignificar o R/C desse imóvel.

Devolvido por um temporal, pela GNR e por uma vistoria da Câmara Municipal da Marinha Grande. Devolvido foi aos seus, como um filho que é devolvido à sua mãe. 

Esses, curiosamente foram relegados à rua que tem o nome do velho fundador do Café Liz. Esse mesmo que teve o seu nome pintado a preto a mando de um dos filhos de um patriarca de mérito não reconhecido publicamente que eu fiz por perpetuar.

As voltas que a vida dá!

A vida é ou não é uma aventura divertida?


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