Filhos



Tenho três miúdos.

E que miúdos!

Dois malucos sonhadores.

Do ‘melhor’ que se pode desejar.

Para a vida os acolher e,

divertir-se imenso com eles.

O que não é,

como todos sabem,

assim uma ‘coisa’ muito boa e promissora.

Para os putos, claro.

Vão apanhar tantas e tantas desilusões!

Umas atrás das outras.

Inevitavelmente.

E nem por isso irão deixar de sonhar.

Por muitos e bons.

Vão ser tantos e tantos anos, que nem sequer me sinto na obrigação de os 

avisar para nada.

Há ‘gente’, como é o caso, com quem não vale a pena fazer avisos de 

qualquer espécie.

...

Tenho outro,

o mais novo.

O maior sonhador dos três.

Mas o único capaz de acordar do sonho que sempre trouxe, desde o dia em 

que nasceu.

O ‘guarda redes do Vieirense’.

...

Tenho três meninos bons.

Isso tenho.

Só que o mais novo tem qualquer coisa diferente.

Talvez por ser mais novo.

Talvez por ser mais mimado e indefeso, não sei.

Mas a vida não tem qualquer capacidade de lhe fazer mal.

Aliás, nunca teve, desde a noite em que resolveu nascer.

Tudo deveria ter corrido mal.

Puseram o J. nos meus braços (muito depois de ter nascido e sem que um 

ruído se tivesse ouvido), e finalmente começou a chorar, perdidamente.

Aquilo é que era um homem a chorar como deve ser!

Disse-lhe uma coisa qualquer, fiz-lhe duas festas e adormeceu como nem um 

bebé acabadinho de nascer “é capaz”.

...

Tenho três putos do caraças!

Isso tenho.

O J. vai andar “à bulha” com a vida.

Não irá ‘perder’ tempo a olhar para horizontes.

Nem para amanheceres e muito menos para entardeceres.

Provavelmente, será o único que ficará por cá.

Coitadinho dele.

Ou coitado de quem com ele se meta sem ter a justiça de argumentos válidos 

do seu lado.

...

Claro e limpo?

Disso tenho a certeza.

Não é por ser meu filho.

É porque sabe distinguir o certo do errado.

O honesto do desonesto.

Isto não é um desejo.

É apenas uma certeza.

...

Nisso são todos iguais.

‘Tadinhos’ dos meus amores.

Aprenderam o essencial.

Só que os mais velhos não param nem nunca pararão de sonhar.

Sei lá com quê!

Com um mundo melhor?

...

Já cá não estarei para confirmar o que lhes fui capaz de passar.

Oxalá acreditem num mundo melhor.

Alguém terá sempre que acreditar.

Irão um dia pedir ajuda ao João.

Apenas porque esse não sonha... Não porque não tenha trazido capacidade 

para isso. Trouxe. Mas esse... faz!

Luta, vai dar tudo por tudo, naquilo com que sempre sonhou.

Parece que não, mas é diferente.

Uns nascem para perder, já outros...

...

Essa é a diferença entre sonhar acordado ou a dormir.

 

Texto 45. ‘Praça da República, 22’ 19 de abril de 2024.

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