Cansaços.
Escrevo com alguma facilidade e rapidez. Seria
hipócrita da minha parte não o reconhecer.
O 28 de janeiro abalou-nos a todos, cada um de sua forma, é
verdade.
Tive os meus prejuízos. Imensos prejuízos é certo, só que
contrariamente a tanta gente estava financeiramente preparado para lhes fazer
frente. E fiz. Não foram de certo os meus piores momentos, por isso estou a um
ligeiro passo de os ter resolvido a todos.
Já passou.
Durante estes breves meses contei com muito pouca gente e com
muito poucos conversei.
A vida é mesmo assim.
Será sempre assim.
Cortei relações eternas, refiz relações eternas e fechei
portas. Muitas portas na minha vida. Sem remorso, sem culpa, sem saudade.
Hoje ouvi duas frases estranhas e a despropósito de duas
das pessoas mais importantes na minha vida.
“andas a fechar portas demais”, dizia uma, “tens escrito de
uma maneira que só te ridicularizas, porque és demasiado inteligente e podias
escrever de outra forma, mais subtil, sem dar os nomes e as fotografias das
pessoas a quem diriges as tuas iras”.
Fiquei, como sempre fico a pensar nestas coisas, porque frases assim não são ditas por pessoas quaisquer.
Enquanto olhava para mais um pôr do sol nesta terra, onde não
conheço ninguém e por isso me liberta, até mais que o infinito do mar, concluo
que não há nada mais tranquilizador que sermos quem somos.
É interessante tudo isto, quando nos vamos limitando a sermos
nós próprios e mesmo assim exista, quem no nosso ciclo mais íntimo nos censure.
“tens sentido de humor, consegues ser sarcástico a escrever.
Quem te lê tem bom QI, deixa-os ficar a pensar a quem diriges as tuas críticas
ou inquietações”.
Já passei muito. E muito pior do que a tempestade me fez agora.
Já devolvi um kg de arroz ou um litro de leite ou de azeite à
boca de algumas caixas de supermercado na Vieira, porque o saldo do cartão
multibanco não o permitia. Nunca faltei aos meus 3 filhos nessa altura.
Conheci a solidão absoluta, passei algumas noites sem jantar.
Todas essas vicissitudes, como as que passei na BIP com o
Raúl, obrigam-nos a crescer e a conviver com a solidão, com a injustiça e com a
revolta. Por isso, nesta altura nada me atormenta verdadeiramente.
Em vésperas dos 58, ouvir estas frases revolta-me mais que a própria realidade.
“andas a fechar muitas portas ultimamente”. Devia andar a
escancarar portões? A gente desclassificada, que me trai e dificulta a vida
constantemente, seja por cêntimos, por ódio ou por poucos milhares de euros?
Devo escrever com sarcasmo, quando a realidade é tão óbvia
que temos de ter graça para dizer o que toda a gente sabe?
Até Cristo, o Homem Deus, falou sempre com verdade e algumas
vezes com ira.
Depois existem e existem em manifesta abundância os pequenos
escroques. Delicados, cínicos, hipócritas e militantes do politicamente correto que nunca se
identificam com a verdade. Esses sim, os verdadeiros vencedores de coisa
nenhuma. Talvez das prebendas, das sinecuras, dos lugares importantes e dos lugares
cativos nos palcos coletivos, com fatos, gravatas e voz grave e discurso
inquestionável.
Não, obrigado!
Não gosto de putas, nem de bordeis e muito menos de quem
neles manda ou como é o caso, quem neles pensa mandar ou influenciar nos execráveis bastidores da vida pública.
Prefiro almoçar no domingo com 11 pessoas à mesa na Nazaré no
melhor restaurante que de tão bom ser, nunca lá fui antes.
Porque o resto, para mim, são cinzas, pó e nada.
Ou seja, toda a merda do costume.
Tirando obviamente algumas e honrosas exceções, que são todos os Amigos, e ainda são alguns, que me vão restando, e mesmo assim ainda são bastantes.



Comentários
Enviar um comentário