A morte não nos deve permitir cometer erros.



O meu pai ensinou-me tudo.

Com poucas ou nenhumas conversas e grandes exemplos.

Houve, no entanto, uma vez em que errou.

E errou redondamente.

Foi a Vida, que o corrigiu.

Neste caso, a minha vida.

Há memórias, que nunca se devem dissipar ou simplesmente fazer por esquecer pela força das circunstâncias que inesperadamente nos vão acontecendo e com as quais nos vamos confrontando.

A figura do meu avô António sempre foi venerada em minha casa.

Quando nasci, esse homem tinha morrido há apenas 15 anos.

Foi e é, para mim, uma presença constante.

Os seus exemplos, exageros, loucuras e disparates sempre me foram transmitidos por todos os que me 'construíram'.

Homem bastante invulgar, com múltiplos defeitos e enormes e raras virtudes.

Aprendi a venerar a sua memória e tentar simplesmente ser como ele. Muito mais do que com o meu pai, até porque o meu temperamento foi sempre muito, mas mesmo muito mais parecido com o seu que com o do velho Armando Teodósio.

Partilhavam os valores, mas diferentes em tudo o resto. Tal como eu e o meu pai.

Estas coisas são engraçadas.

Por vezes, salta-se uma geração, para se encontrarem semelhanças, como em algumas famílias.

Quando fui dando por mim e pela vida que fui escolhendo, encontrei enormes e íntimas semelhanças com o meu avô António.

Até certa idade sempre achei graça a isso.

Hoje não.

Apenas porque me parece a mesma cruz, com o mesmo peso, os mesmos erros, a mesma desgraça.

É tudo parecido demais para ser apenas uma coincidência.

Não entrarei em detalhes, mas um dia fiz ao meu pai esta pergunta:

“se houve algumas pessoas que fizeram tanto mal ao avô como dizes e o fizeram sofrer de uma maneira tão tormentosa que o levou à cama com uma depressão enorme durante meses sem que se conseguisse levantar, logo ele, que dizes ter sido um homem tão alegre e bem-disposto, tendo tu jurado não perdoar nunca a essa gente, porque hoje lhes falas e os recebes em casa?”, perguntei eu com uns 13 ou 14 anos.

“Nunca saberás o que é enterrar um pai e aparecerem-te abraços que sempre esperaste”.

Por acaso soube.

Anos mais tarde.

E entendi.

O meu pai morreu a 28 de outubro de 2002.

Nos meus braços.

Logo pela manhã, recebi alguns desses abraços, esquecidos no tempo.

Foi, até hoje, a única coisa errada que o meu pai, nobre homem, dos mais nobres e de coração mais puro que conheci em que errou redondamente.

Encontrava-se enganado, simplesmente porque há coisas que não têm nem perdão nem esquecimento.

Deverão, esses abraços e as pessoas que os procuram ter, para sempre ficar na nossa indiferença, na distância e no absoluto desrespeito pelo que nos fizeram no passado.

Estavas errado Pai.

Estiveste sempre errado.

Foi, talvez, um dos poucos erros que cometeste na vida. E, fizeste-me repeti-los.

Não é que me arrependa. Nada disso.

Era escusado.

Só isso.

Era escusado.

Como se viu agora!

Era escusado, Pai.

É que sofri imenso com isso.

Era escusado, Pai.


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