1905.
A minha casa foi construída em 1905, conforme prova anexa
nesta foto, pelo meu bisavô Jacinto Teodósio Pereira, que em 21 de novembro
próximo faria 159 anos.
Arrendou a parte habitacional e comercial.
No centro da aldeia.
Um dos melhores lugares comerciais da Vieira.
O meu avô António era um garoto e no fim da adolescência foi
para Lisboa aprender o ofício de comerciante. Por lá foi ficando. Ganhou
diversos prémios de montras nos melhores armazéns do Chiado onde trabalhou.
Já depois de casado com a minha avó Guilhermina, quis montar
um negócio de fazendas na rua da Prata onde arrendou um apartamento e uma loja.
Desistiu e regressou à terra, tendo-se estabelecido com uma
pequena loja de fazendas e retrosaria, num imóvel onde hoje funciona o ‘Chico
Modas’. E por lá ficou, até lhe passar pela cabeça fundar um café, em 1919, no espaço
contíguo. Deu-lhe o nome de 'Café Cervejaria Liz'. E fê-lo em grande. Com um
primeiro andar para jogos de salão, um bilhar lindo de madeira maciça (que
ainda conservo porque o mandei restaurar) e mesas de jogo. Construiu uma
fabulosa escada de caracol e um elevador manual para levar bebidas do r/c para o
espaço de recreio dos seus clientes. Tinha também um ‘frigorífico’ para
refrescar bebidas, numa cave com 2 metros cúbicos com barras de gelo.
O balcão e a decoração eram de ‘Arte Nova’, os seus empregados
vestiam farda branca. Tudo em grande! E, mesmo depois da sua morte prematura
continuou a funcionar onde hoje existe a loja de frutas e legumes ‘Hortipassagem’.
Funcionou nesse espaço até 1962, já com a gerência do meu pai, que decide
modernizar a velha casa, rasgando as montras da velha loja de fazendas que
tinha acabado de fechar e que se tinha, com os anos mudado para aí.
Era, sem dúvida o café mais moderno da Vieira e de toda a
região próxima.
Trespassou-o e continuou, após isso, a ser impecavelmente gerido,
mantendo os mesmos padrões de qualidade, desde 1966 até mais ou menos 2003. Após isso e até há bem pouco foi o que se sabe. Com diversas e diferentes ‘posturas de estilo’, de 'forma', de 'comportamento' e de 'atitude comercial'. Um esgoto.
Fechou, como aqui disse pela força das circunstâncias.
Esta é a história do mais antigo café da Vieira que muitas
estórias guarda. Umas maravilhosas, outras, nem por isso.
Reabrirá um dia.
Moderno, lindo e irrepreensível.
Um dia.
Até porque a Vieira, mesmo tendo batido no fundo, é uma terra
com imenso futuro. Assim haja competência, inteligência, gosto e boas maneiras.
Daqui a menos de dois meses, porque não depende de nós, todos poderão assistir a um pequeno
vislumbre de que todo o passado tem futuro, por mais simples que sejam os
exemplos disso mesmo.
Como dizemos uns aos outros, há gerações em todas as
passagens de ano:
“Viva a República!!!”, porque sempre foi essa a sagrada senha dos
Teodósios nesse velho Café, que um dia ressuscitará com as mãos certas e uma
vontade inabalável de agarrar o que sempre nos pertenceu.
Há cinco gerações.
"Café Cervejaria Liz - desde 1919"
"Viva a República!", um grito que andou afastado deste Café nos últimos 60 anos.
Isto diz tudo.
Tinham-se de pagar taças de champanhe e passas de uva.
Regressará todas as noites de Passagem de Ano, porque as verdadeiras e
Nobres tradições devem ser sempre recuperadas.



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