VIVA A REPÚBLICA!



A minha avó Guilhermina tinha acabado de dizer aos filhos:

“só ganhamos para os juros e o vosso pai não se importa com nada, porque no meio de toda aquela loucura, só diz que tem os bancos na mão”.

Lá adormeceram agarradinhos, mais uma vez.

De manhã cedo naquele 31 de dezembro de 1941, o meu avô António levantou-se exuberante.

Bem-disposto e brincalhão. De tudo fazia uma piada.

Bebeu o seu chá e torradas com muita manteiga.

Tomou um duche naqueles baldes enormes de zinco pendurados no teto da casa de banho a cantar a ‘Lisboa Antiga’.

Para ele era um dia bastante especial. Esperava um ano inteiro por essa noite.

Nada o fazia entristecer, nem a sua falência iminente.

Tinha tudo hipotecado à Caixa Geral de Depósitos e estava feliz, porque nunca teve a mais pálida noção das coisas reais desta vida.

Sempre viveu noutros horizontes e noutras dimensões.

Filho de um homem muito rico, com vasto património.

Foi para Lisboa aprender o ofício de comerciante, coisa fina naquele tempo, até o seu pai comerciante de madeiras e proprietário achou bem. Ter o seu filho mais velho a ascender à pequena burguesia.

E lá foi o o meu avô António para Lisboa.

Deu-se bem por lá.

Ganhou diversos prémios de montras no Chiado onde trabalhou nos melhores armazéns.

A minha avó vivia em Sintra.

Filha de uma família de vieirenses. O meu bisavô de Sintra era também da Vieira e negociava em madeiras.

Respeitadíssima família tanto na Vieira como em Sintra.

Eram os Parracho Filipe.

O meu avô António quando foi pedir para namorar a minha avó, ouviu como resposta, “o Senhor sabe muito bem as circunstâncias em que se encontra”, porque tinha um filho bastardo que nunca renegou, mesmo naquele tempo e com 21 anos.

Anos mais tarde e à frente dos filhos o meu avô dizia à mesa:

“olha lá Guilhermina, tu estiveste muito tempo a pensar naquela frase”.

Todos riam, porque sabiam que frase era aquela. A minha avó, coitada, nunca se ria porque se sentia envergonhada com aquela desfaçatez do marido, ainda mais em frente dos ‘meninos’, que, de resto sempre adoraram esse irmão, que contra as 'normas' da época foi perfilhado e herdeiro. E era visita de casa. Contra tudo o que estava estabelecido nesse tempo. 

Nos primeiros anos de casados, o meu avô chegou a ter um apartamento arrendado na Rua da Prata, com o intuito de iniciar a sua vida por conta própria em Lisboa, com uma loja de roupa e fazendas.

Depois abandonou esse sonho, talvez porque lhe apareceram outros no horizonte.

Voltou à terra e estabeleceu-se como inquilino do seu próprio pai com uma loja de fazendas.

Passados poucos anos, deu-lhe uma ‘coisa’ na cabeça e acordou com um café no horizonte.

Construí-o em 1919.

Deu-lhe o nome de Café Liz e vestiu-o com o melhor que havia. Nas mobílias de arte nova, no balcão, lindíssimo, nos copos, no fardamento dos funcionários. Com tudo o que a sua capacidade de sonhar lhe impôs.

Mais tarde construiu um pequeno elevador manual e uma escada de caracol linda para levar bebidas ao primeiro andar onde pontificava um bilhar em madeira maciça lindíssimo e jogos de mesa. Depois fez uma espécie de geladeira numa cave de 1 metro cúbico para as bebidas frescas com enormes barras de gelo.

Fartou-se do ‘decord’ e desenhou outro café no mesmo espaço com mobílias lacadas a branco.

O balcão era tão lindo que o dono da pastelaria Mexicana na Praça de Londres foi à Vieira vê-lo para ‘tirar ideias’.

Tudo isto se passou numa Vieira dos anos 50, com a sua estrada principal em macadame.

Mas, dizia eu, naquela manhã, falido, com todas as joias da mulher vendidas no prego e o seu imenso património hipotecado, acordou feliz, porque daí a poucas horas era a Passagem de Ano e hora do espetáculo que anualmente fazia em frente a toda a gente.

Agora tudo isso me faz lembrar o Almada Negreiros no programa ZipZip em que disse numa entrevista ao Zé Fialho Gouveia que tudo o mais amava era mesmo do espetáculo.

O meu avô era histriónico e bipolar, como se chama agora.

Tinha o Champanhe no frio do seu café e as passas de uva reservadas para a multidão que invadia pouco antes da meia noite o seu mundo.

Toda a gente que entrava recebia 12 passas de uva e uma taça de vidro da Marinha Grande lapidada que enchia de champanhe, as vezes que fossem necessárias.

À meia noite gritava a plenos pulmões:

“Viva a República!!!! Viva a Liberdade!!!!”

E sentia-se o mais feliz dos homens naquela aldeia pequenina.

Ia-se deitar, deixava os seus empregados a tratar do resto e adormecia agarradinho à minha avó e só lhe sussurrava:

“Foi tudo tão bom. Café cheio a abarrotar.”

E ela coitada aconchegava-se, pequenina, naquele corpo enorme, e adormeciam quentinhos.

No dia 1 de janeiro acordava profundamente triste e só.

Tinha-lhe caído a realidade em cima.

Mais uma vez.

E, simplesmente não sabia como a ia resolver ou naquele caso adiar o inevitável, com a CGD.

É por tudo isto e por muito mais que levo certas coisas como se de um caso de vida ou morte se tratassem.

Acima de tudo, por quem nunca uma passa de uva tenha tido a decência de oferecer a ninguém em qualquer momento.

Uma passa de uva que fosse.

Durante mais de cinquenta anos.

Mais ano, menos ano, as 12 passas e as taças da Marinha Grande lapidadas regressarão cheias de champanhe, com os antigos 'Viva a República!, Viva a Liberdade!' pela voz do seu bisneto João Teodósio Pedrosa em todas as Passagens de Ano.

Que ninguém tenha a mais pequena dúvida!


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