Luís Correia.


 

Ontem morreu a mãe de um grande e velho Amigo.

Filho único, sem filhos, nem tios, nem avós.

O pai morreu-lhe nos braços com um enfarte.

Em segundos.

Nessa altura só me disse, uns dias depois.

Somos Amigos há 40 anos.

Dos tempos do ISEG, sempre com enormes discussões políticas pelo meio. Os dois de esquerda.

Tantas cadeiras fizemos a copiar um pelo outro, nas sete matemáticas (anuais), não havia semestrais nesses tempos. Do género, “tu estudas esta matéria e eu estudo a outra”. Depois era só trocar as respostas e lá íamos nós de vento em poupa.

Inteligente como poucos que conheci.

Só nos zangamos a sério uma vez, quando o Cavaco se recandidatou em 1991 e havia uma bandeira do PSD que dizia apenas isto: “1991”.

O Luís Correia disse-me que ia votar no Cavaco. Estávamos a almoçar na madragoa, que era o único luxo que tínhamos nessa altura, porque éramos dois tesos e esperávamos pela sexta feira para almoçar fora. Uns bifes mal-amanhados, com vinho rasca. Eu ouvi-o, transtornei-me e fiquei fora de mim e só lhe gritei:

“nunca mais falo contigo. Vais votar num partido que na bandeira não tem um ideal, tem uma merda de uma data!”.

Deixei uma nota na mesa e fui para casa.

Claro que essa zanga durou um dia ou dois.

Anos mais tarde na Vieira, disse aos meus filhos: “o vosso pai um dia ficou lixado comigo porque votei no Cavaco. É o único arrependimento que ainda me acompanha”.

Eu estava a ouvir essa conversa e não abri a boca, mas deu-me um gozo do caraças.

Hoje telefonou-me a dizer que tinha ficado sem ninguém.

O Luís nunca me faltou. Nunca me faltou o seu abraço.

Nestas coisas dos nossos mortos, atravessamos enormes, inesquecíveis e profundos sofrimentos mas, ou por isto ou por aquilo, estamos o dia todo à espera deste ou daquele aconchego, que, por vezes nunca aparece. Como me aconteceu tantas vezes.

O dele sempre esteve presente.

Foi um filho extremoso até ao fim.

No sábado lá o abraçarei. Não como pagamento de dividas de gratidão, mas por respeito absoluto e sinal sagrado de que há momentos inesquecíveis, onde poderemos marcar a diferença.

Em paz está a tua mãe, porque nunca lhe faltaste com rigorosamente nada. Tudo fizeste, o que poderias ter feito.

Aguenta-te Luís, que ainda agora começou o caminho da dor e da saudade.

"eu fiz tudo por ela em vida, agora quero um funeral simples", disseste-me há pouco. Como também me disseste: "escusas de vir, só queria que soubesses que estou sozinho".

Alguma vez te deixaria sozinho pá?

Alguma vez? 


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