Lena (1951-2022).
Era minha prima. Das chegadas, senão mesmo, a mais chegada
por parte da família da minha mãe. Amavam-se profundamente, como se de mãe e
filha se tratassem.
A Lena sempre viveu a vida num sopro, cheia de gente à volta
dela. Viveu, de facto, depressa demais. Há dois meses estava a tratar de
realizar uma festa, como só ela sabia fazer, para celebrar os seus 70 anos. “Ó
Rui, o que é que queres, sempre adorei os meus aniversários, mas desta vez não!
Odeio ter 70 anos”.
“Vamos para a minha casa no Douro uns 50 amigos (já reservei
hotéis e pousadas para toda a gente). Vamo-nos divertir todos a ver se isto
passa.”
Nem chegou a fazer 71.
Tantas vezes me disse: “Eu não acredito em nada, mas quando
estou aflita penso sempre que a ter uma estrelinha no céu que me protege é
sempre na tia Nela que penso. E em mais ninguém”.
Devem estar fartas de rir, agora que se reencontraram. Eram
parecidas em tanta coisa. Que é o que costuma acontecer entre mães e filhas.
Deixa lá.
Bem vistas as coisas, há poucas diferenças.
Queres perder o olhar, sai de casa e atravessa a avenida.
Basta olhares em frente.
E lá está ele. O teu mar.
A Nazaré em toda a sua graça.
Deixa lá, não te importes muito.
Queres ver o Douro de cima,
As vinhas, os socalcos,
A Régua?
Sai de casa e vem com uma camisola grossa de lã a tapar as
mãos que envolvem uma caneca de café quente, abre a porta enorme de vidro e vem
ao terraço.
Consegues ver o Pinhão?
Estás a ver. Há poucas diferenças.
Sempre foste teimosa.
Até os defeitos da ‘nossa’ mãe herdaste.
Estamos muito zangados contigo, sabes?
Desta vez por uma razão válida.
Não nos pediste licença para te ires embora.
Desta vez foste longe demais.
Um dia estaremos juntos.
Todos.
Na festa dos teus 70 anos.
Essa, podes crer, ninguém te perdoa.
Vê se fazes por aí o que te incumbe.
Encontra as pessoas necessárias e suficientes,
Apenas e só,
Para te ver dançar num Rancho... da Nazaré, evidentemente.
Com o traje, sabes, aquele traje mágico que dança sozinho!
Desde que vista uma mulher feliz. Como sempre foi o caso.
É esse o preço, por teres tido sempre pressa demais.
Um beijo,
R.
Texto 21, 'Praça da República, 22, Abril 2024



Comentários
Enviar um comentário