Era uma vez uma Aldeia. 2.
Café Liz 1919.
O teu empregado mais dedicado e Amigo de toda uma vida,
Senhor Adelino foi o primeiro convidado a ficar com o teu café novinho em
folha. Recusou delicadamente e até te pediu desculpa por estar a preparar um
investimento próprio com a construção de um novo Café.
Viria a ser o ‘Café Adelino’.
Sempre se adoraram e respeitaram até ao fim dos vossos dias.
Um dia houve em que mandaste o senhor Adelino à Central de Cervejas para aprender a ‘tirar imperiais’.
Obteve um Diploma que ostentava a
seguinte frase:
“Adelino Gomes, Tirador de Imperiais”, certificado pela
Central de Cervejas, junto à Portugália na Almirante Reis. Fizeste questão de o
apor na parte superior da parede da máquina de finos. E o teu Café tirou a
primeira imperial de toda a freguesia da Vieira.
Um dia, o João Luís contou-me: “os nossos pais gostavam tanto
um do outro que se houvesse outra marca de eletrodomésticos à venda, nunca
comprava nada a ninguém que o senhor Armando também vendesse, nem importava o preço”.
Nunca me esqueci disso, como nunca me esqueço de nada que
verdadeiramente importa.
O segundo convidado a ficar com o Café Liz foi o Senhor
Adelino Coelho.
Recusou porque estava a preparar a entrada no mundo dos
negócios de café e restauração com a exploração do espaço da Riomar.
Sempre fomos almoçar em família em alguns domingos ao seu
restaurante já nas suas instalações próprias onde hoje existe o seu restaurante
e a sua primeira Residencial.
‘Senhor Armando para aqui, Adelino prá ’ li’. Foi sempre
assim que se trataram com elevado respeito e cordialidade, construída em
cumplicidades antigas.
No último almoço de família que lá estive, demorei mais tempo
a ouvir as histórias do Senhor Adelino acerca do meu pai do que a almoçar.
O terceiro convidado era um puto, que tinha estado como
empregado de mesa no Rainha Santa. Na altura do convite era recém casado e
trabalhava num café em Leiria.
O meu pai foi a Leiria e convidou-o. Considerava-o e
continuou a considerá-lo imenso por muitos anos.
Propôs-lhe um negócio justo.
“Exploras um ano o meu café e pagas-me uma renda.
Se quiseres ficar com o café o valor do trespasse é tanto”.
A renda era extremamente elevada, mas ele aceitou.
Nestas coisas, e nesta Vieirinha de merda, há sempre quem envenene
e diga ao ‘explorado’: “O Armando Teodósio está-te a roubar”.
E esteve. De tal forma que passado um ano o senhor Henrique aceitou a proposta.
Só não tinha como pagar o trespasse.
O meu pai, só lhe disse: “se não tens dinheiro, eu
arranjo-te, vamos ao banco e serei teu avalista. Ficas a pagar uma renda mais
baixa daqui em diante, porque compras o negócio”.
E assim foi.
O Senhor Henrique como homem honesto e trabalhador que sempre
foi não só pagou ao banco, como conseguiu incrementar o negócio, tinha diversos
empregados e foi prosperando, com toda a justiça, trabalho e mérito.
Nasce o primeiro filho.
Convida o meu pai para Padrinho e a minha tia para Madrinha
do menino.
Penso que foram os anos mais felizes para toda a gente.
Outros se seguiram, é verdade.
Nasci eu, contra todas as expetativas.
Nasceu o Nuno e lá fomos crescendo os três, como se irmãos
fossemos todos.
A inflação depois do 25 de Abril galgou para mais de 20% e as
rendas congeladas.
Um dia houve em que, o então novo rico, senhor Rodrigues se
dirige ao meu pai no seu escritório e lhe propõe a compra da casa construída
pelo meu bisavô Jacinto. O meu pai, homem de poucas palavras só lhe respondeu:
“Óh Henrique, tás doido!”
Os anos foram passando e a renda a reduzir, em termos reais,
todos os anos.
Nem atualizações, com o valor da inflação havia.
No fim do ano e por ‘esmola’ fazia-lhe uns acertos ridículos.



Comentários
Enviar um comentário