Era uma vez uma Aldeia. 1.
No início do século XX, no centro litoral do país existia uma
aldeia curiosa.
Maioritariamente composta por analfabetos, pequenos
lavradores, comerciantes, pescadores e peixeiras de pé descalço, muita fome,
madeireiros e pequenos industriais endinheirados.
Apesar disso, lá se foram organizando, com as parcas elites
intelectuais e políticas, compostas por cerca de dezena e meia de pessoas,
naquele tempo. Contribuíram decisivamente para a restauração definitiva do
concelho, libertando-o do jugo ultra patriarcal vigente na sede do Concelho de
Leiria.
Presentemente, poucos na Marinha o dizem ou por vergonha ou por ressabiamento
de quem fundado foi e sempre, mas sempre manteve e foi mantendo por mais de cem
anos algum despeito e manifesta superioridade tola, típica dos que se julgam ‘os
donos do mundo’. Coisas da Marinha Grande e de alguns imbecis que ainda por lá
vivem.
A Vieira, no início do século XX, teve um sinistro Cura. O
Padre Lacerda, monárquico e reacionário que tudo fez para impedir que os
quintais do seu ‘Passal’ dessem lugar à primeira Escola Primária no centro da
freguesia, como mais tarde veio a acontecer.
70% da sua população pertencia à mais elementar pobreza e/ou
gente, como se dizia na altura, ‘remediada’, simplesmente porque não passava
fome. Tinham uma horta, um quintalito, trabalhavam nas fábricas, ganhando uma miséria e engordavam
um ou dois porquitos, galinhas, coelhos e patos.
Mesmo assim, os vieirenses, lá se organizaram em diversas
manifestações de rara inteligência e fundaram a primeira Associação, que está à
beira de ultrapassar os primeiros cem anos de vida. Ininterruptos!
A Biblioteca de Instrução Popular.
Uma agremiação com um propósito definido, incentivar o culto
pela leitura e pela necessária alfabetização dos seus sócios.
Após isso, apareceram os Bombeiros Voluntários e
imediatamente a seguir criaram o primeiro agrupamento desportivo, que hoje
ostenta o maior património imobiliário da Associação de Futebol de Leiria,
livre de quaisquer ónus ou encargos e com centenas de atletas federados e enorme palmares conquistado, ao longo de décadas.
A Vieira, nesses tempos e até há bem pouco, sempre foi
grande, mesmo dentro da sua pobreza.
Nessa altura, existiam algumas famílias endinheiradas. A
primeira e mais importante era a do grande senhor dos Vidros, industrial
visionário, até pela forma moderna como tratava e contratava os seus
trabalhadores, cujos salários eram substantivamente superiores aos operários
doutros ramos industriais.
A segunda família detinha a produção de limas e aços,
empregando quase dois mil operários, sendo que a terceira era a de um
madeireiro abastado.
Todos deixaram bom património às suas descendências.
O filho mais velho do madeireiro, visionário e, como todos os
dessa estirpe, revelou sempre fraca apetência para o negócio, e no dia da sua
morte, ainda novo, tinha todo o seu património herdado completamente hipotecado
à Caixa Geral de Depósitos por mais de 500 contos de réis.
Há quase 80 anos atrás!
Os seus três filhos passaram uma vida inteira a desonerar essas obrigações bancárias. Com tanto e tão intenso trabalho viram-se obrigados a prescindir de alguns negócios.
Primeiro fecharam a sua loja de fazendas,
realizaram obras de completa modernização desse espaço e desse imóvel, transferindo o velho Café Liz de 1919 para as suas novas instalações.
Café muito moderno para a época, anos 60 do século passado,
com excelentes funcionários e clientela que o frequentava em manifesta
abundância. Casa refeita. Altamente lucrativa, com elevados padrões de
qualidade.
Havia que encontrar um sucessor à altura.
E foi encontrado.
À terceira.



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