Tyrion Lannister.

 


Há alguns anos recebi uma chamada do Manel apenas para me dizer que andava a ver uma série com a mãe e que ambos pensavam que eu a deveria adorar.

Perguntei-lhe o nome da série e o canal onde passava.

“A Guerra dos Tronos” no Syfy.

Nessa mesma noite abri o canal e vi dragões a voar e a vomitar fogo. Desliguei aquilo e só pensei: “mas aquela gente pensa mesmo que eu poderia ver uma coisa destas?”

Passaram uns anitos. 2 ou 3.

Na semana anterior ao lançamento da última temporada, a oitava, começo a ler no público, no Expresso e nas redes, diversos elogios de gente séria e respeitável acerca do ‘Game of Trones’.

Fiquei curioso. Soube que esse canal a iria voltar a passar desde o primeiro episódio, numa média de 10 episódios cada uma. Durante 7 dias seguidos. Cada episódio tinha a duração de uma hora.

O resultado é que só parava para comer e ir à casa de banho e devo ter dormido cerca de 9 horas durante sete dias seguidos.

Na segunda-feira seguinte pude assistir à mesma hora que se iniciava o primeiro episódio da última temporada em simultâneo com os Estados Unidos.

Com a minha histeria televisiva e num argumento magnífico e tão intrincado houve pormenores que me foram escapando, com aquela ânsia de devorar tudo daquela forma compulsiva.

73 episódios vistos.

Fiquei fascinado porque a história era magnífica. Política, traição, crueldade extrema entre algumas personagens, algumas delas ‘amigos’ do peito por uma vida.

Fiz uma pausa de uns 3 anos, sempre a pensar que simplesmente tinha de voltar a ver tudo aquilo com calma, serenidade e, naturalmente com outros olhos.

Descobri que a HBO era o canal detentor dos direitos de transmissão e subscrevi-o no mesmo dia.

Há 4 pessoas que têm acesso total. Eu, a Helena, o João e o António.

Cada um escolheu o seu ‘avatar’ para optar pelo que vê e permitir que o seu algoritmo ‘aconselhe’ o que devermos ver consoante as preferências de cada um.

Escolhi para mim o Tyrion Lannester.

Um anão totalmente enjeitado, desprezado perlo seu pai que o tentou matar por diversas vezes, com uma irmã poderosa e profundamente cruel, que também o tentou matar. Teria tido uma infância profundamente desagradável caso o seu irmão mais velho o tivesse permitido.

Como não tinha direito a nada de relevante, foi-se cultivando, leu muitos livros. Extremamente sagaz e conhecedor da dor e do sofrimento, tinha a rara capacidade de ‘ler’ a mente das pessoas, simplesmente porque passou a vida a defender-se disso mesmo.

Bem-humorado, frequentador de bordeis e bom bebedor de bons tintos.

Toda a trama prende-se numa eterna conspiração e luta pelo poder absoluto entre sete reinos, cada um com as suas fraquezas e virtudes, governados por gente cínica, inteligente e ambiciosa que tratava a traição com a mesma naturalidade com que se respira, sempre para obter favores do Rei Absoluto, fosse ele qual fosse.

Nesta magistral série existem personagens inesquecíveis.

No fim de cada episódio, como em todos os episódios das grandes séries, tem-se sempre uma necessidade urgente de ver o próximo.

Tyrion, foi ‘provisoriamente’ Primeiro Ministro de vários Reis isto é ‘a Mão do Rei’. Inventou cargos, valorizou sempre a inteligência de desconhecidos ou figuras tidas como menores. Concebeu diversas estratégias sublimes e cometeu alguns erros.

Preso diversas vezes, enfrentou a morte iminente as mesmas vezes, sendo que uma delas a pedido do seu próprio pai e irmã (a rainha mãe).

Desenvencilhou-se sempre sozinho ou com ajuda de Amigos, antigos ou de breve circunstância.

No fim, recusou ser a ‘Mão’ da Rainha e foi preso.

Essa Rainha era uma idealista e prometia um futuro completamente diferente daquele que tinha sido vivido durante mais de 1000 anos. Uma libertadora. Inteligente, sensível e justa. Deitou tudo a perder porque por ódio destruiu milhares e milhares de inocentes, numa ambição e numa crueldade sem tamanho. Tomou o poder, destruindo um dos 7 reinos.

Tyrion, vira-lhe as costas e é preso a aguardar, mais uma vez, a morte certa.

A Rainha é morta, num ato de profundo amor e absoluta consciência que iriam coroar uma tirana.

Reunidos os 7 reinos, Tyrian, o anão, é chamado a intervir no Conselho para ajudar a escolher o próximo Rei.

Argumenta com tanto brilhantismo, que lhe perguntam se quer ser ele Rei escolhido. Encolhe os ombros e apenas diz: “Como é que um anão, que gosta de beber bons tintos, pode algum dia ser respeitado?” E volta as costas a todos, delicadamente.

É chamado para que proponha alguém. Escolhe o candidato mais improvável e de todos o melhor.

Foi a primeira vez que um Rei foi aclamado numa eleição democrática em 1000 anos de história.

Assim que se vai novamente a ausentar, o Rei diz-lhe: “só aceito ser o novo Rei se tu aceitares ser a minha ‘Mão’.

Foi assim, que uma situação sempre provisória se tornou em definitiva.

Já vi esta série mais duas vezes e conto-a hoje, porque li por aí um comentário extremamente inteligente acerca de instalações provisórias, com um like do próprio autor e do estratega que a concebeu.

Nunca subestimem a capacidade de um tipo com bom humor, sem cargos e anão, como foi sempre o que aconteceu ao Tyrion! 

Revela soberba, mediania e atrevimento.


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