Só pelo nosso pôr do sol.
Quando eu desaparecer
nunca mais cá voltem.
Só se for por um pôr do sol,
por um mergulho no nosso mar.
Por um jantar na nossa velha casa.
Mas,
evitem voltar.
Isto já passou.
Há alguns tempos que nada é,
apenas porque nada restou.
Sempre que possam, fujam daqui para fora.
Sejam felizes
longe da inveja breve,
da mediocridade,
da má língua cobarde,
porque sempre dita e tida nos bastidores da vida.
Desapareçam desta terra.
Voltem apenas para estar juntos os três.
Deitem-me uma rosa branca na pedra.
A mim e aos outros 5.
Mas vão embora.
Desapareçam,
não sem antes terem ‘furado’ algumas ondas,
sem beber umas imperiais,
a ver,
calados,
um pôr do sol na nossa praia.
Nunca permitam
deixarem-se absorver pelo espanto e pela surpresa
de todos aqueles que ainda pensam ter a rara capacidade de
vos surpreender,
porque, no íntimo, sempre vos detestaram
e,
talvez por isso,
vos consigam ainda magoar.
Com formas e comportamentos em tudo mesquinhos, cínicos,
contraditórios e perversos.
Estranhas maneiras de ser e de vos invejar.
Invejar por vezes o que não existe.
Nem existirá.
Que nunca vos deixeis iludir, meus filhos.
A vida e a maioria daqueles que mais perto estão de vós, não
prestam.
Nunca prestarão!
Façam-se à vida sozinhos.
Sempre.
Vejam outras paragens, outros e longínquos destinos.
Saiam daqui meus amorzinhos.
Fujam sempre disto.
Voltem para um pôr do sol, um jantar, uma noite na vossa casa
centenária que estará para sempre à vossa espera. Vou deixá-la preparada para
isso. Podem estar certos!
Mas tornem sempre a desaparecer, porque nada interessa.
O único verdadeiro abraço que por aqui terão será sempre o
meu.
Só que um dia,
quando não estiver mais convosco,
meus queridos,
fujam disto e nunca mais voltem.
Este espaço e quase toda esta gente não vos merece, como
nunca mereceram quem se limita a ser.
Esta terra há muito que deixou de... ser.
Está rodeada de cinismos breves e eternas mediocridades,
porque, passando o pleonasmo, de invejosas mediocridades se trataram sempre,
todas elas.
Fujam sempre daqui.
Isto não interessa, meus filhos!
Quando eu morrer nunca mais cá voltem.
Só se for por um por do sol ou um reencontro na vossa velha
casa de cento e muitos anos.
Nada mais justificará a vossa vinda.
Nada mais.
Só uma rosa branca.
Por cima da minha pedra!
E das outras cinco.
Só talvez isso,
Nada mais!
in Praça da República, 22, texto 49.



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