Recomeçaremos tudo amanhã. Eu e os teus netos.
Perdemos muito, como sabes, porque sempre estiveste por
perto. Tu e todos vós. Aliás, sem a força que nos conseguiram transmitir, nada
teria sido possível.
Eu, confesso, fui ao meu maior desespero de sempre.
Depois do telefonema que fiz ao teu afilhado Rui Alberto, no
sótão e a chover e a chover em cima de todos nós, caí num choro nunca antes visto
e ainda por cima em frente dos meninos.
Ficaram assustados, porque nunca me tinham visto daquela
forma. Com a mão na boca para não se ouvir um som que fosse, de joelhos, em cima das lonas cheias de água e as
lágrimas a escorrer e a confundirem-se com a chuva que nos caía do céu, implacável.
Nem fiquei envergonhado sequer, porque nem pela presença
deles dei naquela altura.
Nessa semana, era a Câmara, a Proteção Civil, os seguros, a
falta de empreiteiros, e de orçamentos, porque o prédio que nos construíste também estava
profundamente ferido e era uma obra totalmente diferente e ainda mais cara.
E, claro o inquilino que herdei de ti, intransigente e teimoso, com a sua rendazita de 246 €/mês, ainda mantinha as portas abertas do seu café, que o teu pai tinha fundado em 1919
e desgraçadamente trespassaste a essa família. Ainda tinha a casa
cheia de clientes que colocava gratuitamente em risco de vida, todos os dias. E
só eu me preocupava com esse facto.
Tive de recorrer a uma vistoria camararia que apresentou posteriormente conclusões, aqui e ali, completamente indescritíveis e
miseráveis.
Só por isso o café fechou compulsivamente, com a entrada GNR uns dias depois do inquilino ter sido informado, porque, até lá, se recusou sempre a cumprir com o despacho da
Câmara Municipal.
Amanhã, finalmente, as obras iniciar-se-ão.
As do prédio, começam em Maio.
Sem um cêntimo do Estado Português, até porque se estivéssemos
à espera dos apoios do Governo, poder-nos-íamos sentar em qualquer cadeira.
Foram todos vocês que nos protegeram.
A mim, ao António e ao
Joãozinho.
A Sandra e a Helena também foram fundamentais evidentemente. Nunca me esquecerei desse facto. Nunca!
Grande beijo a todos vós, que por aí estão agora e olham sempre por aqueles que deixaram por cá com o vosso nome.
Conseguimos a primeira parte, porque a segunda, a que também
irão assistir, será a fase da ressurreição de uma Casa icónica, que ficará
linda e eterna.
Concebida pelo António e explorada pelo J.
Nunca mais lá queremos estranhos que nunca souberam respeitar a memória daquele espaço, dos seus nobres valores, porque princípios nunca tiveram. Gente do Deve e do Haver.
A nossa Casa renascerá das cinzas e quem sabe não demore
assim tantos anos como isso.
Dá um beijo a todos Pai.
É verdade, o prédio será ocupado a 100%, porque o iremos transformar numa máquina de fazer dinheiro mensalmente, tal como sempre desejaste. Mas, com rendas acessíveis, como sempre fizemos, porque as famílias têm de pagar contas diariamente.
Essa é a postura dos verdadeiros Socialistas, como sempre fomos e não dos 'Condes de Abranhos' desta vida, porque por um cêntimo e meia dúzia de ridículas vaidades e contradições se fazem passar para perder a decência e os princípios que nunca tiveram.
Monumental livro que um dia a tia me ofereceu.
Passei-o ao António, recentemente.
Parece que já vai a meio.



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