"Quem vota nos comunistas, vota no diabo".
O papel da Igreja Católica foi fundamental no
restabelecimento da Democracia em Portugal durante o PREC.
Tínhamos um Cardeal jovem, inteligente e esclarecido. De
direita obviamente, mas determinante para as conquistas de Abril. Só os
ortodoxos do costume poderão ainda hoje dizer o contrário. O próprio Mário
Soares, Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral o admitiram.
Na nossa parolice de Leiria, tivemos o D. Cosme do Amaral, um
fascista reacionário que em vésperas de eleições foi à Vieira, com aqueles sssches
das beiras, presidir à Homilia. Eu, com 7 ou 8 anos, bastante devoto, não
poderia faltar a essa Missa dominical.
No fim pediram aos putos beatos, como eu era, apesar de
pertencer a uma família de ‘ferozes republicanos’ distribuir uns panfletos
pequeninos, provavelmente do tamanho do Avante, onde com letras azuis se apelava
descaradamente ao voto anticomunista. Esse execrável texto terminava com esta
frase: “quem vota nos comunistas, vota no diabo”.
Orgulhoso estava eu, sem ter lido nada, mas ter distribuído
freneticamente tantos jornaizinhos asquerosos.
A minha tia ainda se encontrava no Café depois de terminar a
Missa. Eu tinha-lhe reservado um exemplar e orgulhoso, entreguei-o.
A minha tia nunca foi do Partido Comunista. Leu aquilo, indignou-se
e só me disse: “Tenho vergonha do que fizeste”.
Eu fui logo a correr para casa a chorar e tentar compreender
com a minha mãe que porcaria era aquela de comentário, quando eu apenas quis ‘espalhar’
a vontade de Deus e a palavra de Cristo.
Sempre fui um bufo, é verdade. E lá foi a minha mãe, com a
sua capa de misericórdia pedir: “Óh Helena Branca, ao menos explique ao menino o
que fez sem saber, coitadinho”.
Lá me explicou. A minha tia nestas coisas era bastante dura.
Quando hoje ainda leio que a Santa Inquisição deve ter uma
leitura histórica ou que os abusos sexuais de meninos devem ser recompensados
com 9.000 €, dá-me vómitos, porque tudo deverá ter uma leitura histórica. Só
que, mesmo com séculos ou décadas de distância nunca deveremos perder a capacidade
de pedir perdão de uma forma honesta e sincera e não com palavras de circunstância e oportunismo mediático canalha.
Com todas as obras sociais da Igreja, com todos os Ministros
de Cristo, visionários, solidários e exemplares, ainda resta por aí muita gente
que se devia benzer apenas por se ter benzido!



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