PREC V.



Ainda não dormi.

Acontece-me frequentemente.

O mar da Nazaré esteve toda a noite a bater forte numa enorme revolta.

Cobria com grandes ondas a Pedra do Guilhim, constantemente.

Vento forte.

Pouco habitual por aqui.

Lembrei-me de muitas coisas ao longo de toda a noite na varanda, para onde fugia para fumar um cigarro a ouvir música da melhor que há.

O meu avô Henrique era um homem muito religioso e progressista. Foi vereador da Câmara Municipal de Alcobaça e esteve na génese da criação do Concelho da Nazaré, onde também foi Vereador.

Perdeu tudo numa tempestade.

Tal como o meu avô António tinha uma loja de fazendas onde hoje existe uma marisqueira na praça principal da Nazaré em frente ao ‘Casalinho’.

Perdeu tudo numa noite como a de hoje.

Manteve um casebre com mais de trezentos anos, onde agora me encontro na cobertura e foi trabalhar para Leiria como ‘guarda livros’.

Foi monumentalmente roubado por um Padre, que tinha sido seu avalista e, por isso, abandonou a Igreja Católica com enorme desgosto.

A Igreja Evangélica chegou nos anos 50 à Nazaré e ele, disse à minha avó Maria: “vamos lá. Se disserem mal do Senhor, nunca mais lá voltamos”.

A minha mãe e a minha tia foram batizadas no mesmo dia passados uns anos na Igreja Evangélica Batista.

Passei a noite a pensar em tudo isto.

Como se perde toda uma vida num sopro.

Perdi um beijo, alguns abraços, muitas esperanças e algumas pessoas. E perdi para sempre.

Quando se perde um beijo e um abraço, perde-se tudo.

Por vezes detenho-me com a história da minha família e verifico que muitas coisas se vão repetindo com os anos.

A minha ‘irmã’ Dulce está a dormir, no quarto ao lado da sala onde passei a noite a escrever e passou o fim de semana connosco.

Dia agradável, verdadeiro, limpo e claro como no Poema de Sophia.

É Madrinha do meu mais novo, apenas porque um sábado qualquer apareceu com a sua família na Vieira. Entra-me na cozinha da minha Casa, a Sandra estava com uns 7 ou 8 meses de gravidez. Eu olhei para a Dulce, na varanda, acaricio a barriga da Sandra, e disse-lhe: “tu vais ser a Madrinha do João”.

Ela desconcerta-se em lágrimas e abraçou-me demoradamente.

Não dissemos qualquer palavra nesse longo abraço.

Ontem recordei esse episódio. É que na nossa família e sempre por acaso somos Padrinhos e Madrinhas uns dos outros há mais de cem anos.

O meu pai era afilhado da avó dela.

A minha tia HB, só porque nessa altura estava em Pombal, a minha tia-avó Maria acabada de nascer a irmã da Dulce, volta-se para a minha tia e diz: “tu vais ser a Madrinha da menina”. E assim foi.

O meu João adora a Dulce e vice-versa.

Coisas estranhas e de família.

Coisas simples e de afetos profundos e antigos.

Talvez eternos.

Estamos a organizar um almoço de Teodósios. Será o 5º. Em 50 anos.

O Jacinto, primeiro organizador, chamou-lhe PREC “Pedrosas Reunidos Em Congresso”.

E assim aconteceu em 1978 no Palace da Curia.

Repetiu-se por mais 3 vezes.

Vamos chegar ao 5º este ano.

Tudo isto vem a propósito do mar bravo, de perdas materiais e imateriais, mas sempre envoltas em esperança, porque afinal não se perde imaterialmente o que nunca se teve.

O resto,  ... o que e quem permanece em nós, sempre e para sempre, permanecerá.

E isso é que conta, porque Sagrado.

Obrigado pelo fim de semana Dulce. 

Os afetos que se perdem nesta vida, significam apenas, apesar de toda a dor que envolvem, que nunca afetos foram. Porque "ninguém perde o que nunca teve verdadeiramente", como no filme que há algumas horas vimos. 

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