Aos meus filhos.
Hoje de manhã conversava com a Lígia e com o António acerca
da conquista de sonhos.
Porque demoram tanto tempo?
Porque nos fazem sofrer, tantas vezes desnecessariamente,
enfrentando crueldades evitáveis?
As principais coisas que vamos conquistando demoram no tempo,
com acumulação de sofrimento, cansaço, envelhecimento, desesperança e tantas e
tantas vezes quase nos obrigam a deitar a toalha ao chão.
Comigo tem sido sempre assim.
Os Espíritas dizem que todos pedimos para renascer, sabendo
antecipadamente tudo o que nos espera.
Não sei se isto é verdade, mas para mim até faz algum
sentido.
O meu sonho para a Biblioteca de Instrução Popular demorou 20
anos. Muito sofrido foi para mim, para o meu irmão Manel Branco, para o Rui
Silva e evidentemente para o Raúl que por lá ficou comigo até ao fim. Tantas e
tantas vezes completamente sozinhos, sem nada nem ninguém, sem dinheiro, sem
futuro e com algumas traições pelo caminho.
Realizado foi!
Saboreámos e ainda saboreamos eu e ele essa enorme epopeia.
O segundo grande cume que fui escalando, desta vez sem
ninguém, foi a minha casa na Nazaré.
Demorou, só nas minhas mãos, 30 anos.
Hoje tenho uma varanda magnífica onde saboreio o pôr do Sol e
a única mágoa que diariamente me acompanha é o facto de a minha mãe nunca o ter
conhecido. Talvez partilhe esses ‘pores’ do sol comigo, por vezes. Não sei!
A um mês de fazer 58 anos, resta-me, de todos, o maior.
Mudar de varanda, desta vez para o Nascente.
Voltar a adormecer e acordar no meu berço de sempre.
Na Vieira.
No segundo andar, do nº 22 do Largo da República, num quarto
com portadas para a varanda, acordar no finalzinho da noite, fazer um batido de
morango, uma torrada de bolo da praça com manteiga e beber o primeiro café.
Ir para a minha enorme varanda acender o primeiro
cigarro, saboreá-lo demoradamente e ficar à espera que a Luz me apareça no horizonte.
Levantar-me, abrir os braços e agradecer.
Demore o tempo que demorar, só peço a Deus que me dê essa
possibilidade nem que seja por uma só manhã..
Só nessa altura estarei pronto para regressar à terra e para
a cova que sempre esteve à minha espera, mesmo antes de ter nascido.
Demore os anos que demorar, já vi que trilharei, mais uma vez,
o caminho das pedras.
Nada disso me aborrece, até porque depois de ter resolvido
todos os problemas da minha vida desde o passado dia 28 de janeiro, o único
detalhe que me apareceu hoje no caminho para além de espectável, sinceramente
dá-me imensa vontade de sorrir.
Até lá.
Que Deus, o Sol, a Vida, a Natureza, a Razão, ou a Lucidez,
me mantenham vivo até essa inesquecível madrugada, que lá longe ou perto, espera por
mim.
Daqui para a frente e até essa manhã, nunca mais escreverei
neste blog ou em qualquer outra forma de comunicar publicamente algum comentário sobre este tema.
Só desejo estar vivo para o voltar a fazer, nem que seja para abraçar o Sol, que de uma forma ou de outra sempre me tem guiado.
Até um dia Varanda da minha vida.
Até lá, meu amor.
Até lá ... nesta vida ou na próxima estaremos juntos, porque sempre soubemos esperar um pelo outro.
Demoradamente e com imenso sofrimento.
Metem-se entre nós novamente.
Deixa lá.
Não te importes, porque eu também não.
Costumo dizer que na vida nunca nada temos, porque somos nós que pertencemos às coisas.
Nem que seja quando o meu caixão estiver a descer à terra na campa do meu avô António, nem que seja nessa altura, tu e eu seremos um só, com um batido de morango, uma torrada, um café e o primeiro cigarro do dia, noutra dimensão qualquer que estiver à nossa espera.
Acredita!
Quanto ao resto, ... nada interessa, porque essas mediocridades materiais nunca foram para nós minha querida.
Deixa lá, porque se eu desaparecer antes de nasceres, os meninos criam-te. E, nessa altura, alguns olharão para ti com respeito, outros com despeito e muito poucos com memória daquele que te sonha sempre.
Há mais de cinquenta anos.
Deixa lá.



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