A enorme dignidade de quem tem a memória certa.
Foi uma sublime evocação da
Presidente da nossa Assembleia Municipal, Professora Doutora Catarina Sarmento
e Castro que se levantou hoje num exercício de luta contra o esquecimento.
Um breve toque no divino por parte da
nossa Presidente.
Sensibilizados ficámos eu e os meus
filhos, porque nos bastou e orgulhosos e agradecidos estamos.
Nunca pedimos nem reivindicámos
absolutamente nada acerca da memória da nossa tia. A rigorosamente ninguém.
Antes pelo contrário!
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os
sonhos do mundo.”
Este é o princípio do maior poema escrito em língua
portuguesa: «A tabacaria» de Álvaro de Campos.
Incluí-o nesta carta, simplesmente porque ele encerra a vida
toda, na sua forma mais fugaz, como uma breve, bem breve e curta passagem. No
entanto, e em simultâneo, evoca o sonho que teima sempre em permanecer, em
todos ou quase todos os nossos pequenos e grandes momentos. Porque a vida, a
nossa vida, tenha ela os anos que tiver, é sempre breve demais, dizem os
sábios, os homens de coração puro e os bons poetas.
*
Tia,
As palavras foram contigo e para ti uma espécie de companhia
permanente.
Ao contrário de outros, o silêncio nunca te bastou para te
sentires feliz, segura, e, como se diz agora, politicamente correta.
Quando lias o República e a Seara Nova e não se podia ter
opinião sobre o que fosse, estiveste lá sempre, no meio das palavras, da Opinião,
da Democracia e da Liberdade.
A tua opinião … fosse ela qual fosse, foi sempre pública e
nunca se confundiu ou escondeu do que tantos chamaram ‘a situação’. Nunca
tiveste medo de dizer, simplesmente que ‘aquilo’ não te servia, porque eras
frontalmente contra essa espécie de regime podre e hipócrita.
Tiveste, com isso, alguns pequenos dissabores e nada mais
para o que era habitual nesses tempos e nessas circunstâncias.
Tiveste sorte. Mas assumiste sempre sem medo a tua opinião,
mesmo naquele tempo em que ninguém a podia ou devia ter.
Nunca a escondeste, nunca a enfeitaste, nunca a transformaste
nem travestiste em coisa nenhuma, como tantas e tantas ilustríssimas
personagens que, com a ‘graça de Deus’, por aí vão vivendo agora sem qualquer
curriculum cívico e político, como se não existisse memória coletiva, e o
passado fosse aquilo que por vezes parece ser:
apenas cinzas, pó e nada!
Foste pela Liberdade e pela Democracia.
Foi esse o caminho que trilhaste com o teu pai e com o teu
irmão.
Muito antes do 25 de Abril.
Muito antes mesmo.
Mais tarde, logo após a Revolução de 74... nunca fizeste
muita cerimónia com a discórdia, com a contradição e com o confronto.
Fosse com quem fosse.
Às vezes, penso até, que adoravas isso, a contradição, a
troca de opiniões e de pontos de vista.
Foste a primeira mulher em Portugal a assumir a presidência
de uma Junta de Freguesia.
Tu, nunca foste uma pessoa fácil, acomodada e muito menos
vulgar, que ‘acordou’ apenas, com a Revolução de Abril e por aí foi andando com
palavras convenientes de breve circunstância e interesse imediato. Com um
horizonte ascendente e calculista, só próprio dos lambe-botas desta vida. E
houve e há tantos neste país e neste Concelho.
Sempre desprezaste tudo isso… e toda essa gente.
Consideravas e consideraste sempre que mais não eram que figurinhas
menores, porque cínicas algumas, medíocres outras, ridículas todas e muito
pouco mais que isso; dizias tu, umas vezes revoltada, outras completamente
indiferente, porque já nada te surpreendia, nem mesmo a ingratidão, a soberba ou
a falta de memória.
Foste, para mim, a luz do último farol dos meus caminhos.
Fossem eles quais fossem, eras o derradeiro crivo, a última critica, que sempre
tive por perto, para atestar os meus muitos erros e fracassos, as minhas
posturas, opiniões e contradições diversas.
Eras assim. Foste sempre assim, uma espécie de ‘aferidor’ da
minha vida, da minha alma e de mim próprio.
Conhecias-me como ninguém.
Conheceste-me, como rigorosamente, mais ninguém!
Foste uma mulher fabulosa.
Linda de morrer, inteligente, altiva, frontal, corajosa,
elegante e sensível.
Com o decurso dos anos, curiosamente, nunca te senti com
medo. Nem da vida… e muito menos da morte.
Enfrentaste as duas de frente, cara a cara.
Sem medo nenhum, contrariamente a alguns devotos que, dizias
tu, não passavam de uns cobardes, na sua fé hipócrita, por terem medo de
morrer, entre outras enormes contradições só próprias da vida e de quem a vive.
Contrariamente aos teus irmãos, ateus confessos, tu viveste
ou procuraste viver sempre perto dos mistérios da vida e da morte. Sem nunca construir
certezas absolutas acerca de nada. Sentias-te bem como eras.
Nunca professaste nenhuma confissão, nenhum rito, nenhuma
religião.
Quantas vezes me disseste, quando saía de casa para qualquer
lado menos habitual ou mais longínquo:
“Que o Sol te acompanhe e guie”.
Viveste o que viveste. Fizeste o que fizeste.
Podias ter feito mais?
Claro que podias…
Mas, simplesmente, não quiseste ir por aí.
Tiveste sempre, quase sempre, os teus olhos, esses
maravilhosos olhos verdes, postos no futuro.
Leste Sebastião da Gama, Alves Redol, Guerra Junqueiro, Eugénio
de Andrade, todos os livros de Álvaro Cunhal e de Mário Soares. Leste Sophia,
compraste a primeira edição da ‘Praça da Canção’ do Manel Alegre, leste Fernando
Namora, José Régio, Virgílio Ferreira, Eça, Natália, Vitorino Nemésio, Saramago,
Jorge Amado, Érico Veríssimo, Gabriel Garcia Marques … Sei lá quantas dezenas e
dezenas de autores de primeira água leste tu e me aconselhaste a ler anos mais
tarde?
Com apenas a instrução primária, porque o teu pai não teve
disponibilidade financeira para te mandar estudar. Apenas por isso.
Imaginem uma mulher de trinta e sete anos, nos idos de 50 a
regressar a casa vinda de um funeral e à saída do cemitério da Vieira, ter um
carro cheio de PIDES onde a obrigaram a entrar apenas porque nessa noite havia
um comício da oposição democrática na praia da Vieira no espaço comercial da
sagrada Júlia Cunha?
Fizeram-te entrar no carro e intimidaram-te a não falar nessa
noite e nesse comício.
Recusaste!
Foste ao Comício e usaste da palavra como mulher Livre.
Eras filha do António Teodósio, um republicano, democrata e
antifascista.
Esse, coitado esteve preso 24 horas, porque tinha posto
propaganda antifascista na montra da sua loja, numas eleições fajutas e
execráveis, como todas eram nesses tempos, que tanta gente hoje recorda e
celebra com saudade.
A minha família nunca esteve desse lado.
Nas Passagens de Ano, no Café Liz, que o teu Pai fundou em
1919, oferecia a todos os que entrassem no seu estabelecimento champanhe e 12
passas de uva e gritava à meia noite:
“Viva e República!”, “Viva a Liberdade!”.
Evidentemente nunca assisti a esses gloriosos momentos. Foste
tu que me passaste todos esses episódios familiares e eu, fiz por fazer o mesmo
aos meus 3 filhos, porque a coragem, a loucura e o espetáculo por vezes
confundem-se na mesma cena.
Era assim o teu Pai.
António Teodósio Pedrosa, que morreu num acidente quando aos
56 anos se deslocava de automóvel para um comício em Aveiro nas presidenciais
de Norton de Matos.
Na minha velha e mágica Casa todas estas histórias sempre
habitaram as suas paredes, chão e tetos, porque sempre falamos dos nossos
mortos com imensa naturalidade.
Um dia, num comício de oposicionistas, com o Dr. José Vareda,
o Dr. Vasco da Gama Fernandes entre outros, lá estavas tu, a única mulher
oradora.
A nota da PIDE deixou claro:
“agora até há mulheres a discursar”.
Mulheres!
Como se de seres menores e estranhos se tratassem.
É isso que diz a nota da PIDE desse comício de oposicionistas
que decorreu no Coimbrão.
Nesta altura da minha vida, limito-me a ser um simples
contador de histórias. Tenho perfeita noção disso.
Vou brevemente contar apenas 3.
A primeira pessoa que se lembrou da minha tia foi o atual
presidente da Câmara, Senhor Paulo Vicente, quando um dia como tantos e tantos
outros se cruzou comigo à porta da minha velha casa num fim de tarde de
primavera e me disse:
“olha lá pá, fizemos a comissão de toponímia e eu propus o
nome da tua tia para uma das ruas”.
A minha tia era viva e foi durante poucos anos.
Implorei-lhe que não alimentasse essa ideia, apenas porque se
encontrava viva. Uma parvoíce da minha parte, reconheço-o agora.
Quando confrontado fui com a possibilidade de te oferecerem
essa enorme distinção publica, recusei e pedi por tudo que desconsiderassem esse
assunto tendo o mesmo sido arrumado nesse mesmo dia.
A Associação Nacional de Freguesias lembrou-se de ti também,
no quadragésimo Aniversário das primeiras eleições autárquicas, tendo-te
atribuído uma pequena placa de vidro com o teu nome lapidado a evocar essa data
e o facto de teres sido a primeira mulher presidente de uma Junta. Já muito
doente, muito sensibilizada ficaste há exatamente dez anos atrás.
Para terem uma ideia, quando a minha tia concorreu a
Presidente da Junta, o Presidente Paulo Vicente tinha 21 anos e concorria na
mesma lista em último lugar. O tempo é interessante sempre que o saibamos olhar
atentamente e para trás.
Curiosas análises estas.
A terceira pessoa que se recordou do simbolismo de termos
tido no nosso Concelho, a primeira mulher eleita presidente de junta em
Portugal foi a ilustre Presidente da Assembleia Municipal, logo no seu discurso
de posse.
A propósito da nossa Presidente – cumpre-me contar as duas
últimas pequenas histórias:
Nessa breve conversa, com o então Presidente da Junta da
Vieira, à porta da minha casa, o Paulo disse-me também que a comissão de
toponímia tinha acordado atribuir um nome de uma pequena rua ao meu Pai.
Perguntei-lhe imediatamente porquê.
Responde-me, como é seu timbre, de forma espontânea e
imediata:
“porque o teu pai foi um Homem Bom, não te chega?”
Um dia, muitos anos antes, estávamos umas 8 ou 10 pessoas,
antes da hora de almoço a “apanhar” as saídas das fábricas a distribuir
panfletos do Partido Socialista junto aos Correios da Marinha Grande nas
primeiras eleições do Engº António Guterres. Quando o fluxo de pessoas acalmou,
o Dr. Osvaldo de Castro decidiu que deveríamos todos ir almoçar e propôs-nos ir
até à praia da Vieira.
Logo de seguida disse, quando estávamos todos a ver quem ia
com quem e no carro de quem:
“O Rui Pedrosa vai comigo.”
Eu era um puto de vinte e poucos anos e fiquei bastante
surpreendido com aquela ‘nomeação’.
Fomos os dois sozinhos para a praia e eu pergunto-lhe a meio
caminho:
“Se os partidos acabarem um dia, o que será de nós? Todos os
democratas dizem que não há democracia sem partidos. E se os partidos acabarem
Dr. Osvaldo, o que será de todos nós?”
Com uma calma absolutamente desconcertante, com as janelas
abertas, a 70 à hora, os dois a fumar e a saborear o vento que entrava pelas
janelas e batia nas nossas caras, respondeu-me:
“se isso, algum dia acontecer dr., esperemos que regresse a
sociedade dos homens bons de cada aldeia, como no tempo dos gregos”.
Nunca contei esta história a ninguém, mas quando o Paulo me
disse que o meu Pai seria distinguido por ter tido essa característica, nada lhe
respondi e fiquei em paz até hoje com essa enorme honra pública.
Que nunca ninguém se esqueça, que nos anos 50, 60 e setenta,
houve uma mulher na Vieira, que apesar de ter apenas a instrução primária lia a
Seara Nova, o jornal República, mais tarde e diariamente o Público e o Diário
de Notícias. Detestava as mulheres e os homens que liam o Correio da Manhã no
café que frequentava diariamente.
Eu oferecia-lhe o ‘Expresso’ aos sábados sem o ter lido antes,
porque depois me fazia a recensão crítica dos principais artigos de opinião:
“tens de ler isto e aquilo” e eu, provocador como sempre fui,
adorava tentar contrariar as suas escolhas”.
Raramente o consegui, cumpre dizer.
Que os saudosistas do que nem sabem rigorosamente nada do que
se passou, estudem a miserável história deste país nos 48 anos de fascismo e
ditadura que deram cabo de Portugal e de várias gerações de portugueses.
Homenageio hoje todos os comunistas, os republicanos e todos
os democratas que lhes souberam resistir.
Que nunca nos esqueçamos deles!
De nenhum deles.
A minha tia Helena Branca sempre me ensinou que:
“a Política é a mais Nobre das Artes, porque para servir as
comunidades existe apenas”.
Por isso lhe agradeço.
Aprendam com o exemplo da minha Tia, do meu Pai e do meu Avô
António.
Pessoas com princípios, com dignidade e com absoluta
preocupação pelos outros e pela sua comunidade.
O que diriam agora todos vós, meus queridos, destes tristes
tempos e de gente como esta que por aí prolifera como cogumelos, sem memória,
sem cultura e sem qualquer réstia de humanismo?
Viva o 25 de Abril!
Viva a democracia!
Viva a Liberdade!
Viva a República!
Para sempre.
Obrigado Catarina.



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