Osvaldo Castro e a certeza nos ‘insubstuíveis’.



Pelos meus 25 ou 26 anos, fui apresentado num sábado à tarde ao Dr. Osvaldo Sarmento e Castro no seu escritório. Disse que era economista e tinha regressado muito recentemente para a Vieira. Nessa altura ainda existia o jornal ‘O Correio’, fundado pelo Dr. José Vareda e mais tarde dirigido pelo Dr. Osvaldo Castro e finalmente pelo Dr. Rui Rodrigues. Era um jornal sério, como todos deveriam ser. Publicava notícias concelhias e diversos artigos de opinião, sempre assinados por gente de ‘primeira água’.  

Assim que olhou para mim, com aqueles olhos de curiosidade e cerimónia,  só diz em voz baixa e serena: “chegou a hora da sua geração”. Vá pensando nisso doutor. Serão vós e outros como vós que se encontram agora na primeira linha”. Fiquei em silêncio, como sempre fico, quando estou em presença de alguém muito superior, quase um mito. Estava completamente deslumbrado na presença daquele Homem. Discreto, com aquela voz, com aqueles cigarros SG filtro, com aquela delicadeza e classe, que apenas os grandes sabem ter.

Penso até que nem a boca abri. Até porque o encontro foi breve. Nunca esqueci aquela figura, com uma tranquilidade e serenidade quase inebriantes.

Mais tarde, um ou dois anos mais tarde, e já depois da Junta de Freguesia da Vieira ter gestão PS nos últimos quatro anos, inicia-se aquela que foi uma das campanhas eleitorais mais fascinantes para todos os socialistas do Concelho da Marinha. Quando o seu resultado terminou com a eleição de um novo executivo liderado por Álvaro Órfão, com a equipa de vereação composta por Armando Constâncio e Tereza Coelho.

Soube, pouco mais tarde, que o Dr. Osvaldo tendo estado no último jantar/comício do Partido Socialista na Vieira, ocorrido numa enorme sala com mais de 400 pessoas cheias de esperança na vitória do PS para a Câmara Municipal, contribuiu decisivamente para o convencer que era possível ganhar essas memoráveis eleições! Uma vez confessou-me, “quando regressava sozinho a casa depois desse jantar, tive a certeza absoluta que essa vitória não nos escaparia”. 

E não escapou.

Com o tempo a passar por nós, o seu percurso político vai-se alterando e ganha de novo contornos nacionais.

Estou a falar de um Homem que foi diversas vezes deputado na Assembleia da República, onde tinha deixado enormes amizades em todas as bancadas. Volta a Assembleia como quem regressa a uma velha casa onde viveu anos da sua juventude.

Fez parte de dois governos presididos pelo Eng António Guterres e, mais tarde, assume por eleição entre os seus pares a presidência da 1ª Comissão. A mais prestigiada de todas elas, onde desempenhou o cargo com excelsa competência, tendo sido reeleito posteriormente. Detentor de uma capacidade de trabalho fora do comum, granjeou entre todos os seus pares, toda a respeitabilidade, que a sua competência, sagacidade, discrição e classe ‘obrigava’.

Fez um dos melhores e mais sensíveis discursos numa Sessão Solene nas comemorações do 25 de Abril.

Trouxe sempre consigo aquele passado de Coimbra e das lutas académicas, onde se destaca como número dois da AAC, tendo sido sumariamente preso sem qualquer julgamento, após a luta dos estudantes universitários.

São nestas alturas da vida que se mostram as qualidades que julgo indispensáveis a qualquer político: a coragem, a classe de quem tem opinião e luta por ela sem qualquer constrangimento e de quem arrisca tudo pela Liberdade.

O Dr. Osvaldo é tudo isto.

Símbolo maior da luta pela Liberdade no nosso país.

Uma tarde estava a tomar café na esplanada do cinema com o meu filho mais novo, quando vejo sair do edifício um grupo de comunistas, entre os quais a minha querida amiga Estrela, com a candidata a presidente da Câmara, Drª Alexandra Dengucho e o candidato a presidente de Junta da Vieira, a quem saudei da seguinte forma: “Camaradas, faz hoje anos que o nosso Dr. Osvaldo faleceu. Olhem, faz-nos falta a todos. A vocês e, principalmente a nós”.

O maior respeito que podemos ter nestas ocasiões é ficarmos todos em silêncio e com a saudade nos olhos.

Foi exatamente isso que nos aconteceu!

Em vésperas do Sagrado mês de Abril passar de novo pelas nossas vidas, está mais que na hora de perpetuar o seu nome numa das principais artérias da cidade da Marinha Grande, porque a memória, a inteligência, os certos valores e a coragem nunca deverão ter esquecimento!       

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