O meu Avô António, a Morte e o Perdão.

 


Todos os valores que mais prezo, aprendi-os com o meu pai, a minha tia Helena Branca e, inevitavelmente, com a minha mãe.

O meu pai, homem discreto, sempre me ensinou quase tudo pelo exemplo e poucas palavras.

Quando nasci, o meu avô António Teodósio tinha partido há apenas 15 anos.

A sua presença sempre se fez e ainda se faz notar dentro daquelas paredes.

O meu avô era um verdadeiro democrata e um fervoroso republicano.

Escrevia no Jornal ‘República’ e era amigo pessoal do seu diretor, assim como de muitos outros oposicionistas do seu tempo.

Tinha um temperamento curioso. Exuberante e divertido. Sensível aos outros e às suas vicissitudes. Um homem profundamente solidário.

Construiu um cafezito, o primeiro da Vieira.

Passados uns anos reformulou toda a decoração do seu café. Desenhou um balcão lacado a branco nos anos 30 do século passado, tinha peças de ‘arte Nova’, naquela Vieirazinha provinciana, sem mundo e pouca visão.

Tinha uma sensibilidade estética fora do vulgar e do provincianismo da Vieira que nem tinha alcatrão na sua rua principal. Os empregados usavam farda, o café tinha um elevador pequeno para levar bebidas e cafés a sala do bilhar no primeiro andar. Construiu uma cave de dois metros cúbicos para refrescar as bebidas.

Quando a pastelaria Mexicana, que ainda hoje existe na Praça de Londres em Lisboa remodelou o seu espaço, o dono deslocou-se à Vieira, para conhecer o balcão do velho Café Liz. Estas coisas parecem inventadas, considerando a sua absoluta improbabilidade. Mas aconteceram.

Um meu avô António, um dos homens mais justos de entre os mais justos, possuía uma sensibilidade totalmente fora do comum.

Um dia os seus mais próximos traíram-no miseravelmente e adoeceu, com uma depressão enorme que o levou a permanecer na cama por meses.

Foi tratado pelo Prof. Egas Moniz e teve inúmeras visitas dos seus companheiros antifascistas de Lisboa, de Leiria e da sua terra evidentemente.

O meu pai que quase tudo me ensinou, um dia disse-me: “o teu avô permaneceu num estado tal de sofrimento e amargura, que eu jurei, nunca mais perdoar a todos os que puseram a sua honestidade em causa e o fizeram sofrer daquela maneira”. Confesso, que naquela altura e com 12 ou 14 anos não entendi e perguntei-lhe: “então porque abraçaste depois toda a essa gente e ficaste para sempre amigo deles?”

Fez-me uma festa na cabeça, sorriu e respondeu-me: “tu não sabes o que um homem faz no dia em leva o seu pai à cova”.

Aquilo ficou-me. São coisas que quando ouvidas não se compreendem, mas também não se esquecem.

Muitos anos mais tarde, pude, infelizmente, deparar-me com essa verdade eterna. É que há momentos que pela brutalidade do enorme sofrimento que encerram, nos ‘obrigam’ a agir desta ou daquela maneira.

Quinze anos depois de enterrar o meu pai, o mesmo se volta a verificar no funeral da minha tia Helena Branca.

Há um turbilhão de sofrimento dentro de nós que nunca nos dá espaço para nos encontrarmos impedidos de um abraço, perdão e esquecimento.

É a vida a acontecer.

Apenas isso.

Agora, passados 9 anos do funeral daquela que foi a minha verdadeira mãe, já não penso assim.

Porque nem a morte, nem a dor maior, nem rigorosamente nada nos permite esquecer certas coisas.

O perdão pertence apenas a Deus.

O meu pai, neste aspeto estava profundamente enganado.

Por muitas e demasiado sofridas mortes já eu passei.

Conheço a separação definitiva, daqueles que nunca mais iremos ver.

Agora, ultrapassar certas coisas, nunca mais serei capaz de o voltar a fazer.

A vida, o sol, o mar, os meus filhos, a Helena, a Lígia, o Rogério, a Dulce, o Manel Branco, a Luizete, o Fernando Amado, o Taranta, a Sandra, o Alfredo João e tantos outros que sempre foram ficando, bastam-me bem. E são bastantes.

O perdão e o esquecimento são um exclusivo de Deus e dos simples. E eu sou ou fiquei um homem bastante complicado.


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