CARTA AOS PUROS.

 

 

Aos ‘puros’ da ideologia e do ódio. Aos votantes no Camarada António Filipe, na bloquista anti NATO, anti Euro e anti UE, de onde recebe um ordenadito insignificante e aos votantes no banapartista Almirante que sem qualquer ideologia para além da respeitável farda, não se conhece. Soubemos ontem que em caso de derrota fundará um partido. Para poder dizer que o seu ideário é Portugal. Digamos que André Ventura subscreveria esta mesma frase.

Em circunstâncias normais o meu voto seria, em António Filipe, pela clareza, lisura, inteligência, corajoso percurso e postura para o cargo, só que não atravessamos um momento fácil, como todos sabem.

Imaginemos este cenário provável: dois fascistas na segunda volta. Um delicado, bem vestido, com postura, que apelaria ao voto no candidato do Chega, já o outro um simplório arruaceiro, sem pingo de carácter. Venceria o ultra- liberal.

Por culpa de quem?

Pela dispersão de votos da esquerda e do centro.

Tudo bem. Nos últimos vinte anos a mesma esquerda e o mesmo centro permitiram que dois filhos diletos do anterior regime ocupassem a mais alta magistratura da nação.

Um contabilista sofisticado, outro, um Maquiavel sem alma nem propósito.

A ditadura tão cedo não voltará a Portugal, isso é certo, seja qual for o resultado.

Mas há uma curiosidade relevante nestas eleições.

São estas as eleições do ódio puro e duro. Dentro do PCP, do PS, do BE e do PSD. Partidos, cada um com as suas particularidades, mas que acima de tudo prezam a democracia e a Liberdade.

Votarei no sonso do António José Seguro, porque de um sonso se trata, como sempre se tratou. Como um dia escrevi, quando AJS foi presidente da Juventude Socialista era o jovem mais velho da sua geração. Só que pode ser um razoável Presidente da República Portuguesa. Pela postura, pelo ideário que nunca renegou, pelos valores e pela tranquilidade democrática que representa em tão difícil conjuntura.

Sou republicano até aos ossos, mas antes disso, sou anti-monarquico primário. A monarquia da representação bolorenta e execrável, como todas são, onde o poder se herda, como se de um terreno urbano se tratasse. A monarquia das públicas virtudes e de todas as misérias privadas. É por isso que me obrigo à segunda volta, caso passem à segunda volta os dois fascistazinhos em cartaz, irei votar em branco, pela primeira vez na minha vida e deixarei a todos os outros a difícil tarefa de porem lá, o lixo que melhor entenderem.

Outra coisa, o Partido Socialista teve 5 anos para se preparar para estas eleições. Não se queixem agora do AJS, que, tal como se impõe, avançou sozinho para esta disputa eleitoral. Aquele António José Seguro que foi esfaqueado em público por Costa e pelos Costistas, e para mal dos seus pecados, consentiu que qualquer pessoa, tivesse manifestado em igualdade de circunstâncias o seu voto dentro de um partido livre do qual nunca fizeram parte, elegendo Costa de quem agora tanto mal dizem. E com razão!

A vida é irónica ou não é?

Seguro saiu com honra e sem glória. Não arregimentou tropas internas depois disso, não falou de política durante 10 longos anos. E, hoje, até isso lhe atiram à cara.

Não há dúvida que a integridade e a honradez, são valores em absoluto desuso, nestes tempos.

Depois, não se queixem.

Agora aos puros desta primeira volta dedico este maravilhoso poema do grande Vinícius.

 

CARTA AOS PUROS


“Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à ideia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.”

 

Vinícius de Moraes.


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