Feliz Natal.
Este é o meu Presépio que está exposto todos o ano. O Deus menino numa Vieira aconchegado por folhas secas da minha magnólia.
Texto publicado no dia de Natal de 2021.
Acabei de chegar para dentro de mim mesmo, que é exatamente o
que sinto quando entro em minha Casa.
O último Natal que cá passei foi em 2002!
Em outubro de 2003, o meu Pai esteve breves minutos à minha
espera para morrer nos meus braços. Horas antes, tinha, como sempre fazia,
passado pelo escritório onde “vivia” depois de almoço até se deitar. Vinha do
banco, dava-lhe dois beijos na testa, dizia umas coisas quaisquer e lá me
despedia com um “porta-te bem pá. Até amanhã”.
No dia 28 de outubro foi diferente, tive de voltar ao
escritório para o abraçar, perguntar qualquer coisa antes mesmo de ter tido
tempo para olhar para mim, porque tinha acabado de morrer.
Encostei as nossas testas, longamente, sem saber,
literalmente, o que me esperava. Longos momentos esses em que as lágrimas me
caiam umas atrás das outras sem fazer qualquer barulho. Foi sempre assim que
fui capaz de chorar. Sem dar nas vistas.
Nunca mais consegui passar o Natal na nossa Casa.
Nunca mais!
Hoje, o Natal não foi diferente dos últimos Natais em 18
anos.
Jantei com a Lígia. Almocei com o Rui.
Tenho tido também muitos e muitos Natais com a Dulce e a Ana
Paula, no meio de umas 20 pessoas, onde consigo sentir-me bem.
A primeira Noite de Natal em que fugi para Pombal na casa da
Dulce na Pelariga, tinha o Jacinto de braços abertos, enorme, de pé, cá fora
para me abraçar tanto, mas tanto que me esqueci de tudo. Deu-me tantos beijos o
Jacinto, naquele momento. Tal como o meu Pai, sem uma palavra. Ternura, saudade
e amor em estado puro. O meu querido Jacinto. O último dos Teodósios como um
dia lhe chamei.
Nessa noite, esqueci-me da minha Casa. Esqueci-me de tanta
coisa. A Dulce tinha uma mesa, tal como ela gosta. Enorme. No entanto, tinha no
centro uma coisa especial. Um Centro de Natal que a minha tia Helena Branca
tinha feito para outros Natais na casa da mãe dela.
Grande Natal aquele. Apesar de não ser dentro da minha Casa.
Natal quente.
Natal Feliz.
Noite de fogueira. De calor. De amizade e cumplicidades tão
raras quanto sublimes.
Acabei de entrar agora no meu canto. O ‘porto seguro’ de toda
uma vida.
Mais um Natal sem estarmos juntos. Eu e a minha Casa.
Costuma desejar-se felicidades para o ‘Ano Bom’ como diziam
os mais velhos quando se referiam ao Ano Novo.
Entrei, subi os mesmos 20 degraus que conheço desde que
nasci, e desejei para nós, que tenha sido o último Natal em que estivemos
separados.
Eu e a minha Casa.
Já passou Tempo mais que suficiente para nos reencontrarmos
novamente na noite de 24 para 25 de dezembro.
Feliz Natal para todos.
Para ti também Casa!
Temos ambos de nos reconstruir um destes dias … Já esteve
mais longe, acredita.



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