Fotógrafas de Serviço.

 


Esta fotografia da minha tia Julieta foi tirada pelo meu pai. Só foi capaz de fotografar gente e momentos felizes.

... 

Tudo na nossa vida deve ser feito com Alma.

Tudo.

Caso contrário, fazemos o que tem de ser feito sem prazer. E quando as coisas se fazem sem prazer, fazem-se apenas com propósito. Por sobrevivência, por obrigação ou até mesmo por não haver qualquer alternativa.

O meu pai antes do meu avô morrer, teve uma vida boa. Ia à caça, com uma flobert de 9 mm, feita à mão, com coronha à medida. Fugia à venatória com os amigos, faziam concursos para contar, no fim, quem tinha apanhado mais pardais que cada um, iam às enguias, passavam as tardes na praia da Vieira, iam a todos os bailes.

O meu avô morreu relativamente novo, aos 56, e megalómano como sempre foi, deixou uma dívida por pagar colossal.

Quinhentos contos de reis à CGD, há 80 anos, com todo o imenso património que tinha herdado do meu bisavô hipotecado. Diversos negócios em curso, mas com uma divida brutal.

Era tão doido o meu avô António, completamente distraído, conduzia muito mal, porque estava sempre a falar com as pessoas que levava no carro e voltava-se para trás enquanto as conversas decorriam em tão distraída e irresponsável condução que um dia capotou na ladeira do Paúl. Fez umas pequenas escoriações na cabeça e quando o médico em Monte Real lhe estava a dar uns pontos na cabeça, só lhe disse, teatral: “não me diga que vou morrer senhor doutor, é que morrer agora não me dava jeito nenhum!”

Talvez por isso, a partir de determinada altura, o meu pai conformado com toda a minha irresponsabilidade só dizia às irmãs: “não há nada a fazer, este é igualzinho ao pai.”

O meu pai tinha diversos hobbies. Um deles era a fotografia.

Teve um espaço para revelar fotos, uma máquina para ampliar e revelar tudo o que fotografava.

Provavelmente ninguém sabe, mas quem ensinou o pai do Carlos Portugal a fotografar, ampliar e revelar foi o meu pai. Talvez por isso, enquanto velava o velho Armando Teodósio, aparece o pai do Carlos consternadíssimo (nunca me hei-de esquecer) abraça-me a chorar compulsivamente e só dizia: “morreu o meu Amigo, Rui. Morreu o meu Amigo, puto!”

O meu pai tinha uma máquina Leica. O Ferrari das máquinas fotográficas.

Ainda a conservo. Religiosamente.

Tenho em arquivo centenas e centenas de fotos antigas. Algumas sem terem sido ampliadas e por isso mesmo com as dimensões de um simples negativo.

Se hoje conto esta pequena história é porque a fotografia ganhou expressão de arte. Só que existem artistas desse ofício que apesar de mais não fazerem que conservar memórias ao disparar o clique, não retiveram qualquer memória de tempos idos. Não muito longínquos. Apenas aqueles tempos em que se impõem conservar memórias de simples e fundamentais gratidões.

Hoje, apagam a pedido, imagens de pessoas que não convém estarem presentes na foto de grupo, esquecendo-se que aqueles que hoje apagam e reduzem a sua presença a nada foram os mesmos que lhes permitiram estar a disparar flashes eleitorais. Apagam pessoas das fotos, qual Estaline, com a mesma naturalidade com que pediram em tempos (aos apagados) para poderem agarrar na máquina.

A arte da fotografia é segundo o Mestre Eduardo Gageiro (esse sim, um Mestre) da fotografia “o instinto sublime de reter momentos”.

Se falo do meu pai e do pai do Carlos Portugal é porque esses dois velhos eram e foram muito mais do que fotógrafos amadores. Foram ambos, pessoas de bem, que retiveram momentos sublimes.

De verdade, de vida, de felicidade e de esperança.

Ainda há disto. Claro que há!

Até porque a fotografia nunca se separa da memória. Há é sempre umas esquecidazinhas de merda que de memória nunca nada tiveram. Nem retiveram.

Deus as proteja. 

Delas próprias, claro está.

Comentários

Mensagens populares