Até lá.


 

Vou sair.

De ti.

Com quase toda a certeza,

para sempre.

Não devo voltar,

não devo ter tempo para isso.

Nem tempo,

nem vida.

Provavelmente, nunca mais viveremos juntos.

Fomos tudo.

Tu e eu.

Vivemos tudo.

Tu e eu.

A felicidade absoluta.

A amargura sublime também.

É que a amargura é sempre sublime, quando vivida à exaustão.

Fomos tudo,

tu e eu.

Vou embora,

mas nunca te deixarei só.

Nunca!

Entregaram-te nos meus braços, lembras?

Estava tão frágil, nessa altura.

Tão frágil,

como me sinto agora por deixar de dormir debaixo do teu teto,

sobre o teu peito, minha querida.

Meu amor.

Meu amor maior.

Estás mal,

tão mal,

tão doente …

Vou ficar perto.

Sempre perto.

E, se a vida, ou lá o que isso for,

me der tempo, faço-te renascer.

Serão os meninos que te darão nova vida.

Estão empenhados nisso.

Nunca te faltarão.

São bons rapazes.

Conhece-os bem.

Sabes que é verdade.

Nunca morrerás.

No entanto,

não mais me abrigarás sob o teu telhado.

Já não tenho idade, nem vida, nem paciência para mais mudanças.

Não me leves a mal, meu amor.

Serás refeita.

E ressuscitarás, em toda a tua grandeza.

Com algumas pedras, tábuas de cerne e telhas de 1905.

Até lá, Casa!

Até lá, minha Casa.

Perdoa-me.

Teu,

Rui.  


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