Totas.
Eu era aquele para quem o Totas se lembrou de olhar. O puto, com
uns 70 cm de altura, chapeuzito na cabeça, a tentar sentar-se em cima do motor
do poço da ‘Pensão Clara’.
Em 1970.
O outro garoto em pé é o João Paulo Linhares.
Na outra imagem, também sou eu, num verão qualquer a acampar
com os gajos todos da rua da pensão. Sendo eu o mais novo. O casaco azul do
Totas demonstra bem como eu era pequeno e ele enorme. Essa tenda estava montada
nos terrenos hoje ocupados pelo vigarista que por lá manda. No lado nascente da
duna.
Tempos felizes.
Muito felizes.
A minha primeira morte foi a da minha avó Guilhermina, em
1973. Tinha eu 4 anos.
Foi o Totas, que me tratava como se de um sobrinho fosse, que me escondeu de todo o pesar das cerimónias fúnebres e com isso me poupou a
tanta coisa. Tanta coisa. Soube-o muito mais tarde. E, para sempre lhe deverei
esse gesto grande de ter passado o dia inteiro comigo. Pelos campos do lis, por
uma vacaria enorme que por lá existia, pela Passagem, pela Praia, pelo nosso
Mar e pelo Rio.
Devolveu-me a casa já de noite.
O Totas era um tipo engraçado.
Comandante de navios bacalhoeiros. Uma lenda na Marinha de
Pesca. Há ainda quem dele se recorde dessas andanças, com reverência, enorme respeito
e muita saudade.
Era muito Amigo cá de casa.
A primeira coca cola que bebi (numa lata de 33) foi ele que
me ofereceu dentro de uma caixa enorme. Vinda dos Estados Unidos.
Solteirão e mulherengo inveterado.
Casou tarde.
Viveu a noite de Lisboa como muito pouca gente. Aliás, bem
vistas as coisas, e como qualquer marinheiro, viveu muitas noites em muitos
portos onde atracava o seu navio.
Cozinheiro invulgar. Boémio. Culto. Democrata.
Bruto. Ou melhor, gostava de o parecer. Era um gajo sensível,
como todos aqueles que adoram parecer que brutos são.
Comunista, depois de certa altura.
Gostava muito de mim, apesar de eu dizer apenas uma frase
naquele tempo da fotografia: “eu sou do Benfica e sou um gajo poleilo”.
Eram muito Amigos. Ele e o meu pai.
Uma vez estava o Totas a encher o depósito do seu Mercedes
360, descapotável, na bomba do meu pai e tirou uma navalha fabulosa do bolso e
disse isto: “olha Armando como tens um puto que é um gajo poleilo, ofereço-te
esta navalha”.
O meu pai, uma noite foi buscar o Totas ao porto de Leixões e
levou o seu Mercedes. Aquilo era uma máquina como ninguém tinha. Para cá veio o
Totas a conduzir, perto de Aveiro o meu pai só lhe disse, “olha a carroça pá!”.
Virou o volante para a esquerda e para a direita num ápice, sem uma palavra
dizer, continuando a 200 e tal.
Depois de certa altura, quando se reformou, antecipadamente,
por motivos de saúde, ficou com novos hábitos.
Diferentes, inesperados e inusitados.
Como as cobras, passou a hibernar.
Dentro de casa.
O seu universo que tinha sido o mundo inteiro, passou a ser
apenas o da sua janela e do seu terraço. E claro, para onde a sua inteligência,
sensibilidade, saudade, sei lá, o levava.
Recebia maravilhosamente os seus Amigos. Cozinhava como
qualquer comandante de navio sabe fazer e apenas para as pessoas de quem
gostava e com quem gostava de estar.
Lembrei-me dele o dia todo.
Talvez porque, pela primeira vez tenha entendido, a sério, a
sua postura de recolhimento depois de uma vida inteira vivida ao contrário.
A minha tia Helena Branca, tal como o meu pai sempre se deram
muito bem com ele. Uma manhã, rara manhã, cumpre dizer, estavam a conversar os
dois, quando, de repente, olha para o relógio e só diz: “tenho de me ir embora
Helena Branca, deixei um doce de maçã ao lume”.
A minha tia nesse almoço, vira-se para o meu pai a rir e só
disse: “vê lá tu Armando o Totas foi a correr para casa porque se esqueceu de
um doce de maçã que estava a fazer. Eu nem quis acreditar, mas a Arminda
confirmou. Queimou-se! Alguma vez imaginaste aquele homem a fazer doce de maçã?”
O meu pai só sorria, sem uma palavra dizer.
Solidariedades masculinas talvez.
Mas, dizia eu, passei o dia a lembrar-me daquele gajo, que me
atirava ao ar, para me agarrar nos braços, quando vinha a cair.
Como te compreendo agora Comandante…
Há alturas na nossa vida que só nos resta recolher ao porto,
para deixar de zarpar, porque a vida, afinal fica mesmo aqui.
Ao pé de tudo.
Do silêncio.
Da cozinha.
De Um amor.
Dos filhos (se os tivermos).
De uma casa.
E, de pouco mais.
E é tudo.
Tinhas razão.
Sempre tiveste.




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