Bita

 


Hoje adormeci. Não fui ao funeral do Bita.

Fiquei triste comigo.

Hoje era daquelas manhãs em que não podemos adormecer.

Quando recordo um Amigo que parte procuro lembrar-me dos melhores momentos que passamos juntos. São eles que devem prevalecer para sempre na nossa memória. E, são essas recordações que acarinham a nossa saudade.

O Bita estava muito doente. O seu último ano foi dos mais difíceis que alguma vez atravessou. E o Victor Fétèira foi um homem que maiores e mais difíceis provações soube sempre ultrapassar. Tinha uma enorme vontade de viver. Foi sempre assim.

Tenho, felizmente muitas memórias com ele. Desde a primeira em que com sete anos na varanda do Tótas, lhe pedi para namorar a filha. Ele olhou para mim muito sério e respondeu, “podes, mas olha que ela é comunista!” Ainda hoje brinco com a Miguel com essa história e com a resposta que dei imediatamente ao meu futuro sogro!

Quando fiz 50 anos, convidei seis Amigos para o almoço. O Bita ficou sentado ao meu lado esquerdo.

Dezenas e dezenas de conversas tivemos juntos. Mais as tristes que as alegres. É verdade. Mas os Amigos são sempre assim: sabem partilhar tudo, porque precisam de quem os ouça e ainda de quem lhes fale.

Um fim de tarde, na esplanada do café liz, estávamos os dois sentados e aparece uma miúda dos seus 17 ou 18 anos a fazer uma sondagem partidária com diversas perguntas num formulário. Então eu digo-lhe assim: “olhe eu e este senhor somos de correntes políticas diferentes, mas como somos muito amigos, vamos fazer assim: eu preencho o seu formulário e ele preenche o meu. No fim, vai ver que acertamos completamente com as opiniões um do outro”. E assim foi. O Bita só me disse assim, já a miúda se tinha ido embora: “se os gajos da política fossem como nós, isto era um país diferente”.

Na vida, há dois tipos de pessoas: as que fogem quando as coisas se complicam e as que sabem permanecer!

A empresa de limas ainda hoje existe, porque não foi à falência. Foi vendida mediante uma condição essencial de não despedir nenhum trabalhador. E, naquela altura eram muitos.

Poucos o dizem na Vieira, mas o responsável pela sobrevivência da empresa de limas foi ele.

Enfrentou um processo em tribunal, que venceu. As suas testemunhas foram os trabalhadores, o sindicato dos metalúrgicos e, … o Presidente da Câmara João Barros Duarte.

O Bita era um homem bom, generoso e com um sentido de humor inteligente e subtil. Penso que nunca mais foi o mesmo desde que regressou do Brasil. Trouxe amarguras várias no coração. Foram provavelmente os anos em que foi mais feliz.

Fui visitá-lo há um mês e vim com a sensação que nunca mais o via.

Partiu ontem. Em paz com ele, com a vida e com tudo. Estou certo disso.

E eu hoje adormeci!

Tinha de partilhar estas pequenas memórias de um dos homens mais dignos que conheci na minha vida inteira.

Um Bj Miguel.   


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